quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Aminetu Haidar: 18 dias em greve de fome pelo regresso ao Sahara Ocidental


Fonte: Amnistia Internacional - Portugal

Salvemos a vida desta mulher que apenas quer:
• Regressar à sua pátria;
• Juntar-se à sua família e aos seus dois filhos
• Que o seu povo possa decidir o destino num referendo de autodeterminação livre

Dado o grave estado de saúde de Aminetu Haidar, defensora dos Direitos Humanos saharaui, há 18 dias em greve de fome no aeroporto de Lanzarote, Canárias, pelo regresso à sua terra natal, o Sahara Ocidental, de onde foi expulsa pelas autoridades marroquinas no passado dia 14 de Novembro.
A Amnistia Internacional - Portugal convoca todos defensores dos Direitos Humanos para uma VIGÍLIA de SOLIDARIEDADE com AMINETU HAIDAR, a realizar 5.ª Feira, dia 3 de Dezembro, entre as 18h30 e as 20h00, na Av. da Liberdade, frente ao Consulado na Espanha, junto ao monumento de Homenagem aos Mortos da 1.ª Guerra Mundial.
Através desta vigília, os participantes pretendem manifestar a sua solidariedade com a mulher saharaui e acompanhar Aminetu Haidar na defesa dos seus direitos e liberdades.
Com esta acção cívica, os participantes na vigília querem apelar ao Reino de Marrocos e a Espanha e ao Secretário-geral das Nações Unidas que deixem a cidadã Aminetu Haidar regressar à sua terra e à sua família.
A morte de Aminatu Haidar pode ser evitada desde que ela possa regressar a sua casa e isso só Espanha, o Reino de Marrocos e as Nações Unidas estão em condições de resolver.
Aminetu Haidar foi detida no aeroporto de El Aaiún, capital do Sahara Ocidental ocupado, quando regressava a casa no passado dia 13 de Novembro, vinda de Nova Iorque onde recebera o prémio “Coragem 2009”, atribuído pela Fundação Train, dos Estados Unidos. Foi submetida a tortura psicológica num interrogatório de mais de 24 horas sem a assistência de nenhum advogado.

Posteriormente, a polícia marroquina retirou-lhe o passaporte e, contra sua vontade, meteu-a num avião com destino ao aeroporto de Lanzarote, com o que contou com o consentimento prévio das autoridades do Ministério de Negócios Estrangeiros do Governo de Espanha. Ao chegar ao aeroporto de Lanzarote, Aminetu foi obrigada a sair do avião e a entrar em território espanhol, sem contar com a documentação necessária para o fazer.
Apesar dos esforços que intentou para conseguir uma passagem de regresso a El Aaiún, as autoridades espanholas impedem-na de regressar a sua casa. Argumento: não possuir passaporte para o fazer!
Aminetu Haidar começa então uma greve de fome por tempo indefinido até que lhe permitam regressar e voltar a reencontrar-se com os seus dois filhos, em El Aaiún, com plenas garantias de segurança para ela e sua família.
Os participantes na vigília querem igualmente denunciar a violação, por parte do Governo de Espanha, do direito fundamental da activista Aminetu Haidar à livre circulação, direito consagrado pela Constituição Espanhola, pelo Convénio para a Protecção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais do Conselho da Europa e pela Convenção Internacional de Direitos Civis e Políticos, firmada por Espanha e Marrocos. Direito que foi brutalmente infringido, como referiu recentemente o prestigiado Consejo General de la Abogacía Española (CGAE).
Aminetu, não estás só, a tua luta é a de todos nós!

Os participantes na vigília são apenas alguns dos muitos e muitos que, em todo o mundo, têm demonstrado a sua solidariedade dom Aminetu Haidar:

“Exprimi a minha profunda solidariedade e a minha simpatia para com Aminetu Haidar, o símbolo da luta do povo saharaui pela autodeterminação e a independência", convidando instantemente as autoridades marroquinas e espanholas a facilitar o mais urgente possível o regresso de Aminetu Haidar para junto da sua família e à sua pátria, o Sahara Ocidental”
José Ramos Horta – Prémio Nobel da Paz e Presidente da República Democrática de Timor-Leste

Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.
José Saramago – Prémio Nobel da Literatura

“…o activismo deste rosto da resistência saharauí é pacífico e decorre num contexto em que o diferendo se procura resolver pela via do diálogo mediado por instâncias internacionais. Invocar um procedimento administrativo para expulsar o símbolo de um povo da sua própria terra é algo que não honra quem o pratica. Por isso apelo. A morte de Aminetu Haidar pode ser evitada desde que ela possa regressar a sua casa.”
Miguel Portas – Deputado no Parlamento Europeu

"amedronta-me a ideia de que esta mulher se esteja a imolar. Quero afirmar que ela não está só, que é uma heroína do nosso tempo, vítima de uma política errada e que ela é mais necessária viva que morta, para que a luta continue".
Pedro Almodôvar – realizador de cinema

"Se Aminatu Haidar acabasse por morrer por tudo aquilo que está a passar em Lanzarote, muitos fechariam os olhos juntamente com ela. Por isso parte-se-nos o coração só de o pensar. Se Haidar cerra os olhos o Governo de Espanha — tanto este como todos os que o precederam — será, tal como Marrocos, o verdadeiro verdugo"
Javier e Carlos Bardem – actores de cinema

«manifesta a sua solidariedade com a activista dos direitos humanos Saharaui Aminetu Haidar e pugna pelo cumprimento dos direitos humanos e das resoluções aprovadas pelas Nações Unidas»
Voto de Solidariedade aprovado na Assembleia da República no dia 27-11-2009

«The United States remains concerned about the health and well-being of Sahrawi activist Aminatou Haidar, recipient of the 2008 Robert F. Kennedy Human Rights Award and the Train Foundation’s 2009 Civil Courage Prize. We urge a speedy determination of her legal status and full respect for due process and human rights.»
Declaração do Departamento de Estado dos EUA no dia 26-11-2009

«Vemos com preocupação as notícias de repressão e violação dos direitos humanos da população do Sahara Ocidental e concretamente aqueles que atingem os defensores dos DH como Aminetu Haidar. (…) A sua frágil saúde e a defesa dos seus direitos humanos fundamentais requerem uma atenção imediata.»
Rigoberta Menchú- Prémio Nobel da Paz

Prémios recebidos por Aminetu Haidar pela sua defesa dos Direitos Humanos no Sahara Ocidental:

• Prémio à Coragem Civil outorgado pela John Train Foundation (2009) - EUA
• Premio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos (2008) – EUA
• Prémio especial outorgado pela Cãmara de Castell de Felds, Espanha (Outubro de 2007)
• Prémio “Club das 25” concedido em Madrid, Espanha (Outubro de 2007)
• Prémio Silver Rose Award outorgado pelo Parlamento Europeu (SOLIDAR) (Outubro de 2007)
• Prémio Manos Solidarias Alcalde CAMILO SANCHEZ, Santa Lucia, Graã Canaria ( Maio de 2007 )

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

António Guterres visita campos de refugiados saharauis

O alto-comissário da ONU para os Refugiados António Guterres visita nos próximos dias 09 e 10 de Setembro os campos de refugiados saharauis na região de Tindouf, Argélia, indicou hoje a agência noticiosa argelina APS.

A visita vai permitir ao antigo primeiro-ministro português testemunhar no terreno a situação dos refugiados, que dependem totalmente da ajuda internacional, segundo a agência de notícias.
Mais de 165 mil saharauis vivem em campos de refugiados, segundo o movimento independentista Frente Polisário, que reclama, com o apoio da Argélia, a independência do Sahara Ocidental, uma antiga colónia espanhola que foi anexada pelo reino de Marrocos em 1975.

Em finais de Julho, as Nações Unidas desbloquearam cerca de um milhão de euros (1,5 milhões de dólares) do Fundo Central de Intervenção de Urgência para reforçar o programa de assistência humanitária aos refugiados saharauis.
O Alto comissariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR) lançou um pedido de 4,2 milhões de euros (cerca de 6,03 milhões de dólares) para ajudar os refugiados, mas só conseguiu angariar 44 por cento da verba até Julho, segundo uma fonte da organização internacional.
O estatuto final do Sahara Ocidental está por determinar desde o cessar-fogo de 1991, mediado pelas Nações Unidas, que não conseguiu organizar posteriormente um referendo para o efeito.

Marrocos recusou aplicar os acordos assinados em 1997, que previam a realização de um referendo sobre a autodeterminação.
Cerca de 80 por cento do território do Sahara Ocidental é controlado e administrado por Marrocos, enquanto a Frente Polisário controla 20 por cento.
A Frente Polisário proclamou em 1976 a República Árabe Saharaui Democrática, que reivindica a soberania sobre o Sahara Ocidental e foi reconhecida em 1982 pela União Africana (então Organização da Unidade Africana), o que levou Marrocos a abandonar a organização.
No início do conflito armado com Marrocos, vários milhares de saharuis abandonaram o território, na sua maioria mulheres e crianças.

Fonte: DN Online

terça-feira, 14 de julho de 2009

Entrevista a Francisco Louçã: “O povo Sarahui deve poder estabelecer a sua independência”


Francisco Louçã, fundador e deputado do BE, em entrevista à A23 afirma que o partido “sempre se associou às resoluções internacionais e à defesa da independência do Sahara Ocidental”, e que o Bloco tem “uma relação muito intensa” com a Frente Polisário, acrescentando que tem “acompanhado com muito cuidado e preocupação todo o seu trabalho de diplomacia internacional”. O deputado acusa ainda o Estado Português de manter “uma posição entre o silêncioso e o cúmplice com a Espanha e Marrocos”, e critica a “atitude de grande ignorância” do Estado face “às exigências de independência e de respeito” do povo Saharaui. Entrevista de Ricardo Paulouro

A23: Qual a posição do Bloco de Esquerda em relação ao conflito no Sahara Ocidental e aos cerca de 200.000 mil refugiados Saharaui a viver há 34 anos em campos de refugiados na região de Tindouf?
Francisco Louçã - O Bloco de Esquerda sempre se associou às resoluções internacionais e à defesa da independência do Sahara Ocidental. Parece-nos que é um direito irrecusável à existência de um estado que corresponde a uma nação.

A23: O Bloco de Esquerda tem criticado o posicionamento do estado português relativamente a esta questão. Porquê?
F.L. - O estado português tem tido uma posição entre o silêncioso e o cúmplice com a Espanha e Marrocos e tem tido uma atitude de grande ignorância em relação às exigências de independência e de respeito. O que é estranho, dado que Portugal estava nesse período envolvido no apoio à independência de Timor Leste, com um critério que só pode ser obviamente o mesmo.

A23: Qual a resposta e justificação do Estado face a estas críticas?
F.L. - Tem variado muito ao longo do tempo mas é evidentemente uma questão que a diplomacia portuguesa procura menorizar e procura até ignorar, pelas pressões das relações europeias, sobretudo, relações ibéricas.

A23: Os múltiplos acordos de pesca entre a UE e Marrocos contemplam o uso de águas, por direito pertencentes ao Sahara Ocidental, para exploração por parte dos países membros. Considera que a UE tem tido uma posição hipócrita em relação à questão do povo Saharaui?
F.L. - Sim, não há dúvida nenhuma. Os acordos de pesca são, ao que conheço, a actividade económica mais importante em que se tem explorado os recursos do que deveria ser um Sahara indepedente. Há um interesse económico muito forte de Marrocos em intensificar esta relação com a UE para normalizar e até banalizar a sua presença no território.

A23: Nas últimas eleições europeias, o Bloco de Esquerda triplicou a sua influência eleitoral. Faz parte da agenda política do Bloco de Esquerda alertar os países membros para a causa Saharaui?
F.L. - Temo-lo feito sempre não só no Parlamento Europeu, como na Assembleia da República. A Ana Drago representou o Bloco de Esquerda numa delegação que esteve no Sahara Ocidental numa reunião promovida pela Frente Polisário. Nós temos uma relação muito intensa com a Frente Polisário que se tem feito representar nas nossas convenções e temos acompanhado com muito cuidado e preocupação todo o seu trabalho de diplomacia internacional. É uma questão que continuaremos sempre a seguir porque nos parece que é um critério muito importante, até do ponto de vista de Portugal, do ponto de vista das relações de Portugal com Espanha, do ponto de vista das relações de Portugal com o Mediterrâneo em geral e com África, em termos genéricos.

A23: Na sua opinião, quais são as medidas necessárias para se chegar à resolução definitiva deste conflito?
F.L. - É preciso concretizar as resoluções anteriores das Nações Unidas no sentido de perimtir a escolha livre do povo Sarahui para poder estabelecer a sua independência e as suas regras de organização pública.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Polisário admite voltar às armas

Notícia do Público de 01.06.2009
Por Isabel Gorjão Santos

Salem Lebsir, dirigente da Frente Polisário, apela ao Conselho de Segurança e diz que os sarauis não podem "ficar à espera no deserto"

Há 34 anos que a Frente Polisário luta pela independência do Sara Ocidental, tempo de mais para muitos sarauis que vivem no território ocupado por Marrocos em 1975 e para os 165 mil que fugiram para os campos de refugiados no Sul da Argélia. O governador de um desses campos, o de Dakhla, Salem Brahim Lebsir, está em Lisboa e põe a hipótese de um regresso à luta armada se as negociações falharem. "Não queremos voltar à guerra, não queremos romper o cessar-fogo. Mas, se nos obrigarem, o que vamos fazer?" A guerra no Sara Ocidental, que durante 15 anos opôs a Polisário ao Exército marroquino, terminou em 1991 com um acordo de cessar-fogo e a expectativa de um referendo organizado pelas Nações Unidas, que criou uma missão específica para o efeito, a Minurso. Agora a Polisário volta-se para o novo enviado da ONU para o Sara Ocidental, Christopher Ross, para o Conselho de Segurança das Nações Unidas ou para a nova Administração norte-americana. E, se tudo falhar, põe a hipótese de um novo conflito. "Voltar a pegar em armas é uma das hipóteses que temos", diz Salem Brahim Lebsir, que é também membro do secretariado nacional da Frente Polisário e está em Portugal a convite do Conselho Português para a Paz e Cooperação. Em entrevista ao PÚBLICO, sublinhou que a Polisário "não quer a guerra", mas admitiu que a violência possa regressar ao território no próximo ano. "Preferimos morrer a combater do que ficar ali à espera, em pleno deserto, mais do que 34 anos". Muitos sarauis nunca conheceram outra casa senão esse "pleno deserto" que são os acampamentos de refugiados, cada um com o nome de uma cidade do Sara Ocidental que ficou para trás. Salem Lebsir hesita quando lhe perguntam sobre a nova ronda de negociações que não tem data marcada. Em 2007 chegou a haver negociações mediadas pela ONU perto de Nova Iorque, mas não houve acordo. Agora o enviado especial da ONU visitou Marrocos, Argélia, França e Espanha. Lebsir recorda o encontro com os representantes da Polisário: "Dissemos que queremos o referendo e ele respondeu que vai fazer um esforço para chegar a uma solução". Mas Salem Lebsir não está muito optimista. "Não vemos vontade por parte do Conselho de Segurança. A França continua a apoiar Marrocos. Os americanos ainda não tornaram clara a sua posição. No tempo de Bush estavam com Marrocos e agora, com Obama, ainda não sabemos qual é a posição política em relação ao Sara Ocidental", diz. "E se o Conselho de Segurança não pressionar Marrocos para que aceite um referendo, não creio que o enviado especial vá resolver o problema".As principais acusações vão, no entanto, para Rabat. "Marrocos mantém a sua posição de autonomia e nós defendemos um referendo com três opções: autonomia, independência e integração em Marrocos", explica Lebsir. A Frente Polisário tem defendido que o referendo se faça a partir do recenseamento realizado por Espanha ainda em 1973, quando o Sara Ocidental estava sob domínio espanhol, e não um recenseamento feito após a ocupação marroquina através da operação Marcha Verde, em 1976. "Marrocos quer que a população marroquina que vive agora no Sara Ocidental tenha direito a votar, e isso não podemos aceitar".

30 mil refugiados
Em Dakhla à espera de regressar

Há quem tenha deixado a casa há 34 anos e quem nunca tenha conhecido nada além das tendas e casas de adobe a 175 quilómetros da cidade argelina de Tindouf. No acampamento sarauí de Dakhla vivem cerca de 30 mil refugiados que deixaram o Sara Ocidental após a ocupação marroquina. As temperaturas ultrapassam muitas vezes os 40 graus Celsius, falta comida. Em Maio, a sexta edição do Festival Internacional de Cinema do Sara trouxe alguma animação ao acampamento."Os dias passam com as crianças a estudar e as mulheres a trabalhar na saúde, no fabrico de têxteis de lã e a cuidar dos mais pequenos e dos mais velhos", conta Salem Lebsir, o governador do acampamento. Fala das mulheres porque são elas que ali vivem, com as crianças e idosos, enquanto os homens estão em unidades militares. "Agora não há guerra, mas nos acampamentos são as mulheres que se ocupam da saúde, das oficinas, de toda a gestão diária. "Em Abril, o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) coordenou uma visita de 43 portugueses àquele acampamento. Um dos objectivos foi avançar com um projecto de construção de uma escola para 630 crianças, com 14 salas de aula, refeitório e cozinha. Sandra Benfica, do CPPC, recorda que quando recebeu o orçamento fez a conversão de moeda várias vezes para ver se as contas davam certo: eram 30 mil euros, nada que não se conseguisse com alguma imaginação. Com o apoio de várias autarquias portuguesas, a escola ficará concluída em Dezembro, e foi no âmbito dessa cooperação que o CPPC convidou o governador do acampamento a visitar Portugal. Dakhla tem sete municípios e um hospital regional, mas está completamente dependente de instituições internacionais como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. "A alimentação que chega é igual desde o princípio até agora", lamenta Lebsir. "É insuportável. Não somos refugiados de um ano ou de meses". Por iniciativa do realizador de documentários peruano Javier Corcuera, começou a realizar-se no acampamento o Sahara International Film Festival, cuja sexta edição decorreu no início de Maio e que tem ganho alguma notoriedade com a ajuda da actriz Penélope Cruz ou do realizador Pedro Almodóvar. Salem Lebsir lamenta a falta de comida no acampamento de Dakhla, onde vivem cerca de 30 mil refugiados .

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Guiné Bissau reconhece a República Árabe Saraui Democrática como Estado

O jornal online ibinda.com noticia que o Governo da Guiné-Bissau reconheceu formalmente a existência da República Árabe Saraui Democrática, RASD, como um Estado de direito. O jornal classifica este facto como "uma vitória diplomática da Frente Polisário". A Guiné Bissau passa a integrar a lista de mais de 80 países que reconhecem a RASD.

"A decisão governamental foi anunciada em comunicado de imprensa esta quarta-feira em Bissau. De acordo com o mesmo documento, o executivo do Carlos Gomes Júnior, sustentou a sua medida com base nas resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a questão Saara Ocidental. «Depois de ter analisado a questão à luz das resoluções da Assembleia-geral e do Conselho de Segurança da ONU que permitiram ao Reino do Marrocos e a Frente Polisário estabelecerem negociações directas entre as partes, por forma a encontrar uma solução política justa e aceitável, o Governo decidiu levantar a suspensão do reconhecimento da República Árabe Saraui Democrática em vigor desde Março de 1997», adianta o comunicado do Governo. O comunicado do Governo sublinha ainda que o executivo reitera a sua disponibilidade no processo negocial iniciado entre o Reino do Marrocos e a Frente Polisário. A RASD foi membro, desde 1984, da Organização da Unidade Africana (OUA) e membro fundador da União Africana (UA)".
Autor: Sumba Nansil

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dia da África: Um apelo à hipocrisia

Artigo de opinião de Timothy Bancroft-Hinchey, director do jornal russo Pravda.

Amanhã é 25 de Maio. O dia em que se formou a Organização da Unidade Africana em 1963. É o dia em que a comunidade internacional recorda que África existe e com egoísmo presunçoso, tenta colectivamente ganhar pontos promovendo todas as causas africanas enquanto perpetua os males que assombram os africanos.

Tornou-se moda, para tantos, serem vistos como campeões de uma caridade ou de uma ONG africana para as mesmas razões que apresentar um bebê negro ao colo, patrocinar uma criança africana ou adoptar um bebé sub-sahariano atrae a atenção mais facilmente do que algum miserável das espeluncas de Mumbai, uma moça indesejada da Mongólia Interior ou de qualquer outra criança que teve a infelicidade de ter nascido no lado errado de alguma fronteira.

Especialmente se a criança africana é fotogénica.

Mas quem, por exemplo, diz uma palavra sobre as crianças Sahraui, ou então do povo da Sara Ocidental, invadido e anexado pelo Marrocos em 1976 e negado o direito a ser nação? Quem aumenta a consciência pública sobre os milhares de línguas africanas - e simultaneamente de culturas - ameaçadas com a extinção quase numa base diária? Quem se importa que os governos ocidentais – os mesmos que tiveram tantos dilemas sobre Saddam Hussein - negoceiam com regimes africanos não-democráticos, fazendo vista grossa aos seus abomináveis registos de Direitos Humanos?

Quem lê sobre as onze milhões (11.000.000) de pessoas deslocadas em África central e oriental, a pior crise de deslocação do mundo, causada pela violência por sua vez ventilada pelos poderes exteriores que continuam a desejar governar África com uma política da divisão interna, enquanto espreitam os recursos do continente e subornam os gerentes das instituições que os controlam? Se corrupção existe em África, não é só porque os oficiais são corruptos, é igualmente porque foram corrompidos.

Mas de repente, beleza! É o dia 25 de Maio! É dia da África! E amanhã tantos vão vestir a camisola da África e vão tirar a poeira dos apontamentos do ano passado, fazendo umas alterações à peça de opinião e apoiando as Grandes Causas Africanas de 2009 (depois de terem passado sem dúvida um ano inteiro a escrever disparates sobre África, ou não terem escrito nada, ou terem feito comentários insultuosos e racistas contra Africanos).

Aqueles que assim fazem devem sentir especialmente envergonhados quando souberem que o Gabinete para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA em inglês) acaba de emitir um relatório que reclama ter recebido apenas 27 por cento dos fundos necessários para a sustentação da população em África central, um terço dos fundos necessários para criar a estabilidade em Somália, onde 40 por cento da população são dependentes do apoio alimentar e cujo capital hospeda meio milhão de refugiados que vivem nas circunstâncias mais chocantes.

Aqueles que lêem estas linhas pela primeira vez e que podem sentir-se surpreendidos sobre a falta na informação acerca da África no pacote diário de “notícias” que eles recebem, devem compreender que aqueles que costuram, editam e controlam esta “informação” decidiram há anos que África é e será vendida como um lugar escuro e perigoso com pessoas escuras e perigosas, não vivendo, mas existindo, com seca, guerras e fome, AIDS e malária e corrupção, ébola e mais corrupção. Uma causa perdida.

Aqueles que acreditam que África não é uma causa perdida mas que negam que os problemas existem são tão culpados como aqueles que perpetuam as situações que assombram os africanos através de práticas de corrupção e de actividades comerciais escuras.

A única maneira de dar algum significado ao Dia da África é enfrentar os factos e definitivamente, de uma vez por todas, fazer algo, colectivamente, porque os problemas da África foram criados não somente por Africanos. Este processo deve começar com os meios de comunicação a fazerem seu trabalho, nomeadamente informarem, não espalhando boatos, desinformação e enganando o público, de modo que os cidadãos do mundo possam esperançosamente fazer algo para ajudar seus irmãos africanos, visto que é óbvio que as gerações dos nossos líderes não fizeram absolutamente nada para corrigir os erros da escravidão, do imperialismo e do colonialismo.

domingo, 24 de maio de 2009

Sara Ocidental: À espera de uma vida normal

Reportagem publicada na revista Notícias Sábado do Diário de Notícias/Jornal de Notícias, 23 de Maio de 2009
por Joana Simões Piedade

A NS’ visitou um campo de refugiados do Sara Ocidental em Tinduf, no Sudoeste da Argélia. Em casas de adobe, sujeitos a dificuldades de alimentação e deficientes cuidados de saúde, rapazes e raparigas que já viveram com famílias de acolhimento em países europeus, incluindo Portugal, têm sonhos iguais aos de quaisquer outros da sua idade.

SÃO CINCO da manhã. Lamira, 18 anos, prepara-se para a primeira oração do dia. Dever cumprido, junta-se à mãe que, sentada no tapete colorido que constitui a única mobília daquela sala de quatro paredes feitas de adobe, dá início ao ritual da preparação do chá. Vários copos pequenos são alinhados em fila, o pote com água colocado nas brasas, o líquido fervido é despejado num dos copos e, depois, passado de copo em copo até criar espuma. Um ritual que irá repetir-se inúmeras vezes ao longo daquele dia.
Estamos num dos acampamentos de refugiados de Tinduf, deserto do Sudoeste da Argélia, onde habitam cerca de 165 mil sarauís da antiga colónia espanhola do Sara Ocidental. A paisagem é desértica, pedregosa e infértil, com barracas de tijolo cru e tendas de lona (chamam-lhes jaimas) despojadas de tudo, sem luz nem água corrente. Não se vislumbra vegetação, a água é escassa e extraída através de furos. Ventos fortes, o chamado siroco, soprados do deserto em direcção ao Norte de África, causam tempestades de quando em vez. As raras chuvas torrenciais provocam desabamentos.

NO VERÃO, as temperaturas atingem o calor sufocante dos cinquenta graus, nas noites de Inverno podem ir aos negativos. Como podem viver Lamira e a família ali? Fugiram para a Argélia após a retirada da Espanha em 1975 e consequente anexação do Sara Ocidental a Marrocos. Agora esperam.
Esperam voltar à sua terra de origem banhada pelo oceano Atlântico. Em 1976, o movimento de libertação Frente Polisário autoproclamou a independência da República Árabe Sarauí Democrática (RASD) e, desde aí, tem criado no Sudoeste da Argélia estruturas de um Estado, ainda à espera de o ser. Para não esquecer o passado, os acampamentos de refugiados têm os nomes das cidades do Sara Ocidental controladas por Marrocos há 33 anos.
Lamira e a família de sete pessoas moram em Dakhla, o mais longínquo dos quatro acampamentos, situado a sudoeste de Tinduf, junto à fronteira com a Mauritânia, mais perto das dunas de areia do Sara do nosso imaginário. Cerca de 95 por cento da população são mulheres. Os homens prestam serviço militar e vão para longe de casa, para a «frente», apesar de não haver obrigatoriedade para se alistarem nem guerra onde disparar. Regressam de meses a meses, consoante a permissão.
Contrariando algumas práticas estabelecidas e outras tantas ideias feitas no que toca aos países árabes, perante esta situação, cabe às mulheres um papel fulcral na organização e gestão dos campos de refugiados: são a maioria nos conselhos regionais e representam 34 por cento do Parlamento Sarauí. Revezam-se entre a organização da casa e das famílias, cursos profissionais, actividades de apoio social aos mais carenciados, trabalho associativo. Manterem-se ocupadas é vital para resistir ao vazio da espera.

OS DIAS no acampamento são longos e há muito pouco para fazer. As crianças e os jovens frequentam a escola durante a manhã e ao final da tarde, evitando as horas de maior calor. Como Lamira. A jovem fala num castelhano perfeito, aprendido na escola e nos três anos que viveu e estudou em Sevilha com uma família de acolhimento espanhola.
Sentada no chão, com as irmãs mais novas encavalitadas, mostra com satisfação as fotografias tiradas durante esses anos. Irreconhecível à primeira vista, é uma outra menina sem a sua melfha, o lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauís, e que Lamira veste por cima das calças de ganga e ténis. Em cima de uma scooter, com o cabelo frisado, top de alças colorido e brincos, maquilhada para uma festa ou vestida de sevilhana. Depois em Cádis, no casamento de uma «irmã», vai apontando com orgulho a família emprestada.
Nos álbuns vindos de Espanha aparece sempre de óculos postos, os mesmos que se recusa a usar no deserto. «Para quê? Aqui não preciso deles.» Óculos feitos metáfora na vida de Lamira, como se nada houvesse para enxergar no deserto. Confessa, entre risos, que «em Espanha não rezava. Ao princípio sim. Depois esquecia-me. Mas a minha mãe não sabe». Para os muçulmanos sarauís, o Estado é laico e a religião é opção de cada um. Esta posição de tolerância religiosa deixa-os mais longe dos restantes países árabes.


QUANDO VOLTOU da Andaluzia, Lamira chorava todos os dias. Depois, passou, conformou-se. Quer ser cabeleireira, mas o sonho será adiado. «As pessoas no acampamento não têm dinheiro para isso.» Desconsolo maior parece ser relativo aos rapazes «aqui são muito feios, ou bonitos mas com os dentes estragados», confessa, fazendo uma careta.
E namorar? «Não, não. Aqui, se a tua mãe sabe que gostas de um rapaz já não te deixa sair de casa. Não quero isso para mim», diz enquanto tira os óculos de sol imitação chinesa de marca de renome comprados em Argel. A vida de adolescente na normalidade possível da condição de refugiada.
A ida de Lamira para Espanha insere-se numa estratégia política da RASD na área da educação, que encontra eco na frase «ser culto é o melhor caminho para ser livre», repetida em várias placas por todas as escolas. Todos os anos 8400 crianças, entre os 8 e os 12 anos, saem dos acampamentos sarauís para passar um Verão mais ameno na Europa (Espanha e Itália, sobretudo) junto de famílias de acolhimento ou em acampamentos de férias, ao abrigo do programa Férias em Paz.
Algumas das crianças e jovens aproveitam para recorrer a tratamentos médicos impossíveis de realizar em Tinduf. O desenvolvimento deste programa veio ainda introduzir nos acampamentos um factor novo: a circulação de dinheiro. A nova realidade possibilita a existência de um pequeno comércio, feito de lojas de supermercado, vestuário e quinquilharia vária e cafés. Estabelecimentos frequentados não só por delegações da ajuda humanitária como pelos refugiados. Com o apoio internacional foram ainda construídos cibercafés onde jovens sarauís consultam e-mails e conversam em chats na internet.

PORTUGAL é visto pelos dirigentes sarauís como um país com potencial para acolhimento destas crianças, até pela proximidade geográfica. Apesar das tentativas levadas a cabo por organizações como o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), apenas um número reduzido de portugueses tem recebido crianças sarauís.
Alzira Mendes vive no Restelo, em Lisboa. Teve o primeiro contacto com os refugiados quando acompanhou o marido, médico, à Maratona do Sara, que acontece todos os anos em Fevereiro. A partir daí, começou a acolher crianças. Agora, de visita a Smara (o maior e mais densamente povoado dos acampamentos de Tinduf), fica em casa da família de Halifa, de 17 anos, que já recebeu em Portugal. «Gostei da piscina e da praia, dos parques e dos passeios», diz o rapaz.
O relato de Alzira é emocionado. «Ganhei mais com eles do que eles comigo, não tenho dúvidas.» Mas ser família de acolhimento é duro. «Quando vão para nossa casa têm saudades da mãe e choram nos primeiros dias. Depois percebem que têm muito para aproveitar naqueles dois meses. Vamos com eles a todos os sítios possíveis, queremos que vivam tudo, conheçam tudo. Quando partem, as saudades são muitas para nós e para eles também.» Depois, fica o vazio e «todos os dias sentar-me à mesa e pensar se eles aqui terão comida».

COMIDA NA MESA. É sempre a incógnita para os refugiados sarauís, actualmente vítimas de reduções da ajuda alimentar da qual dependem totalmente. Marrocos tem vindo a acusar a Polisário de revender a ajuda humanitária na Mauritânia e isso, segundo a RASD, tem consequências no envio de alimentos por parte das organizações. O alcaide de Dakhla conta que «há cada vez menos alimentos e problemas com o transporte.
Os atrasos chegam a ser de um mês e isso causa uma situação muito complicada para as famílias». Quando chega, nos dias 1 a 10 de cada mês, cada pessoa recebe alimentos básicos consoante a quantidade disponível: dois quilos de farinha, um quilo de arroz, massa, açúcar, lentilhas, uma lata de atum, azeite. O que for possível.
Como consequência de uma alimentação deficiente, muitos refugiados sofrem de má nutrição, anemias e desidratação. Nos hospitais, os médicos sarauís, maioritariamente formados em Cuba, contam com o apoio permanente das representações espanhola e grega da organização não governamental Médicos do Mundo.
Ibrahim, médico ginecologista, é o único especialista na região e vem ao hospital de Dakhla uma vez por mês. Entre um cigarro e outro traça o diagnóstico. «As mulheres aqui carregam muito peso, sacos de comida da assistência humanitária, água, isso provoca muitos abortos espontâneos, rupturas intra-uterinas. Só há pouco tempo começaram a substituir os trapos por pensos higiénicos durante a menstruação e estamos a conseguir evitar várias infecções.»

OS DOIS MÉDICOS residentes deste hospital têm 28 anos. Ali Maulud e Matala alternam a cada semana a posição de homem do leme do hospital e, nessas alturas, são responsáveis 24 horas por dia. Vêem-se a braços com muitos casos de hipertensão, diabetes, doenças respiratórias, bronquites e desidratação.
A má qualidade da água é responsável por um elevado número de doenças intestinais, gastrites, febres. Os banhos são esporádicos porque a água escasseia. Apesar de o sistema de saúde ter vindo a conseguir evitar a propagação de epidemias nos campos, as condições são deficientes.
A secção de maternidade de Dakhla tem uma incubadora e esterilizador alimentados por um sistema de aproveitamento solar ue só funciona quatro horas por dia. A energia fornecida não chega para mais.


O caminho de Dakhla ao acampamento «27 de Fevereiro» faz-se a bordo de um Land Cruiser por um caminho de pó e solavancos. Ao fim de 120 quilómetros passamos por Rabuni, o centro administrativo dos vários campos de refugiados, onde se concentra todo o aparelho deste «Estado» virtual.
Numa comparação ocidentalizada, Dakhla corresponderia ao campo, feito de casas dispersas e estradas vazias, e o «27 de Fevereiro» à cidade, com a azáfama de várias gerações de refugiados, estrangeiros de organizações de ajuda humanitária, e com a electricidade que permite ter luz ao clique de um interruptor.

NO RECINTO da escola, à volta da qual cresceu o acampamento, está montado um palco. Projectadas em dois improvisados panos brancos, passam imagens de uma marcha de protesto realizada, no dia anterior, junto ao muro de dois mil quilómetros construído por Marrocos. Há música, gritos e vivas a um Sara Livre.
Bader Habub, 28 anos, está presente e é o presidente de uma associação de voluntários (a Brigada Sumud) que actua nos campos de refugiados fazendo trabalho junto das famílias mais necessitadas, inválidos e mutilados de guerra. Como muitos jovens sarauís que frequentam cursos superiores no estrangeiro (sobretudo em Espanha, Argélia e Líbia), Bader estudou Geologia e Contabilidade em Cuba.
A postura perante o conflito, como a da maioria dos da sua geração, é radical. «Para ter a independência, para ter direito à terra, há que derramar sangue.» Ainda assim, Bader espera que «o referendo da ONU seja realizado com justiça» [ver caixa]. Activistas sarauís como Bader comparam a situação do Sara Ocidental a Timor Leste, ocupado pela Indonésia após a saída de Portugal, da mesma forma que Marrocos ocupou o Sara quando Espanha abandonou a região.
A revolta do jovem dirige-se para a escassez de perspectivas de uma vida melhor. «Aqui há muitos licenciados que não têm como utilizar os seus conhecimentos. E muito dinheiro das ajudas humanitárias tem origem no nosso mar, através das pescas, e na nossa terra, através dos fosfatos. Riquezas que Marrocos divide com os países ocidentais», indigna-se.
Bader olha para o futuro e garante que não quer ser contabilista em Espanha nem geólogo em França. «Não quero ser exilado aqui, na Argélia, e depois imigrante noutro sítio. Quero o meu país e ficar com o meu povo onde quer que ele esteja. Até ao fim.»
Ao fundo, como ecos no acampamento, risos universais e cantares em árabe soltam-se no escuro da noite abrigados por um céu inteiro de estrelas que só se deixam ver no deserto.
Versão online aqui.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Colóquio Sahara Ocidental: 36 anos de luta pela autodeterminação e independência

Via Blogo Social Português tomei conhecimento que a Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental, a ATTAC-Plataforma Portuguesa, o CIDAC (Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral), a Comissão Nacional Justiça e Paz e o Fórum pela Paz e pelos Direitos Humanos organizam no 25 de Maio (2.ª Feira), pelas 18h30, na sede da Associação 25 de Abril, um colóquio sobre os 36 anos de luta pela autodeterminação e independência do Povo Saharaui.

São oradores: a Prof.ª Maria do Céu Pinto, do Departamento de Ciência Política e Administração Pública da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, o General Pedro Pezarat Correia e Adda Brahim, representante da Frente POLISARIO em Portugal.

A Associação 25 de Abril fica no nº 95 da Rua da Misericórdia, ao Chiado.

Canal de televisão saharaui começa a emitir para o mundo


A BBC Monitoring cita o jornal de língua árabe Al-Hayet, com sede em Londres, segundo o qual o novo canal televisivo saharaui RASD TV, situado em Tinduf, terá transmissão terrestre para os refugiados do Sahara Ocidental e também através do satélite Intelsat’s 905.
A programação da RASD TV será, numa primeira fase, totalmente em árabe mas prevê-se que, posteriormente, haja também programação específica em inglês e espanhol.
Segundo noticia a Rapid Tv News, o director do canal, Mohamed Salem Ahmed Labaid, disse à Agência de Notícias Saharaui (SPS), no dia 17 de Maio, que espectadores a viver em África, Europa Ocidental e grande parte do Médio Oriente serão capazes de receber e visionar o novo canal. Labaid acrescenta que "os espectadores poderão ser informados diariamente dos últimos desenvolvimentos da questão do Sahara Ocidental e da situação no território ocupado, através de boletins informativos e vários programas na área política, cultural e social, bem como vídeos e documentários sobre a luta do povo saharaui".
Segundo a mesma fonte, o responsável para os Media da Frente Polisario, Mohamed El Mami Tamek, referiu ao jornal Al-Hayat que a decisão de lançamento de uma estação televisiva "coincide com as comemorações do 36º aniversário do início da luta armada" contra a presença de Marrocos no Sahara Ocidental. Segundo Tamek, o novo canal "irá revelar as graves violações cometidas por Marrocos contra os saharauis nos territórios ocupados no sul de Marrocos".
A RASD TV já emitia programas, de forma experimental, nos campos de refugiados de Tinduf durante quatro horas por dia. O objectivo agora é ser captada em todo o mundo, especialmente "nas cidades saharauis debaixo de ocupação marroquina".
O projecto existe há cerca de cinco anos e o seu financiamento está a cargo da Asociación de Amigos del Sáhara de Sevilla.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Um salto à chuva


De volta à estrada. O mais longínquo dos acampamentos de Tinduf, e por isso o mais sofrido, aquele que alberga os maiores problemas e carências, ficou para trás na nossa jornada – no rigor e crueldade da geografia - e seguimos viagem. Com a promessa de fazer chegar pelo correio fotografias, notícias, saudades e de espalhar a palavra, contar a todos quanto pudermos a história e as estórias que ali conhecemos.

Voltámos aos Land Cruiser azuis que vão desbravando terra, cortando o ar, levantando pó, sem rumo definido no chão, tentando seguir as pistas anteriormente desenhadas pelos pneus de outros jipes. A caminho do vazio. Sentada no banco da frente vou tentando, aos solavancos, físicos e metafóricos, relembrar os últimos dias, apontando no caderninho preto recordações, na tentativa vã de não esquecer nada para melhor contar tudo. Entre memórias, passamos por um posto militar “importante”, dizem-me, em termos estratégicos devido à proximidade com a Mauritânia. Logo a seguir, a aldeola de Gara Djebillet onde vivem os familiares dos militares.

Iremos parar um pouco depois, a 70 quilómetros de Tinduf, no meio do nada, para visitarmos o internato do 12 de Outubro. A escola que abriga 650 alunos, entre os 12 e 18 anos, recebeu o nome da data em que se festeja a Unidade Nacional dos Saharaui. Como nos explica o director, este internato é uma etapa intermédia para todos aqueles que pretendem continuar a estudar. Após os quatro anos ali vividos, os jovens podem seguir para um dos vários países com os quais existem protocolos de cooperação para estudos universitários. Líbia, Síria, Cuba, Argélia ou Espanha, podem vir a ser o seu próximo destino. Visitamos as salas de aulas, com paredes bem providas de pedaços da história de um povo, contada através de fotografias a preto e branco de heróis nacionais e cópias de mapas; no chão maquetes da escola, minuciosas, pormenorizadas, construídas a papel, areia e pedra; no laboratório de química, tubos de ensaio, pipetas, varetas, espátulas e demais equipamento que permite descortinar os mistérios da natureza; na cantina gigantesca, mesas corridas, intermináveis, onde são colocados tabuleiros e servidas as refeições; nas dezenas de dormitórios, centenas de camas abrigam os 650 jovens que trocam a vida junto dos pais pela continuação dos estudos e personificam a máxima “Ser culto para ser livre”, presente em todo o lado.

Durante a visita, o calor sempre abrasador que nos esmaga, queima e amolece, é interrompido por um vento forte e barulhento que se levanta sem avisar. De repente, saímos para a rua e deparamo-nos com o cenário que a fotografia ali em cima mostra. Junto a um muro, uma mão cheia de crianças ensaiava saltos e piruetas festejando uma chuva miudinha e refrescante que caía inesperadamente. Alegria em estado puro na simplicidade de água no deserto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O futuro que espreita


A nossa despedida da casa de Dakhla. Da direita para a esquerda na foto, Francisco, Sanya, a irmã mais nova de Lamira que adorava andar com a nossa máquina fotográfica em punho, ora a acordar o pai com os flashes, ora a retratar para a posteridade a mãe de sorriso largo no rosto e “V” de vitória entre os dedos (vitória de um Sahara Ocidental livre, claro!). E Hailili, de três anos, o irmão caçula, o futuro da “nossa” família de Dakhla.

Os três à porta. A espreitar.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Festival Internacional de Cinema do Sahara 2009




Fotos "roubadas" daqui.

Uma janela aberta para o mundo. Durante cinco dias e cinco noites, as dunas de Dakhla servem de cenário a um festival internacional de cinema. A sexta edição do Festival Internacional de Cinema do Sahara (FiSahara 09) acontece já de 5 a 10 de Maio no acampamento de Dakhla em Tinduf. Durante o festival, que não inclui uma competição oficial, projectam-se filmes como Camino, La ola, El truco del manco, Los crímenes de Oxford e Che, entre outros, assim como algumas curtas-metragens, filmes africanos ou de temática saharaui.

“Esta iniciativa nasce com a finalidade de sensibilizar e dar uma solução parcial às necessidades detectadas, referentes ao lazer, actividades culturais e de formação audiovisual, entre a população de refugiados saharauis dos acampamentos de Tinduf, na Argélia. O objectivo é realizar actividades de difusão cultural no âmbito cinematográfico”, refere a organização do festival.

O projecto Cinema pelo povo saharaui quer ir mais longe do que os cinco dias que dura o FiSahara e abarca também a criação de uma rede de videotecas, uma em cada um dos acampamentos e de oficinas e cursos de formação audiovisual. Formar jovens entusiastas da sétima arte e, devagar, ir criando uma verdadeira escola de cinema nos acampamentos, são os objectivos traçados.

O "direito a viajar" das crianças saharauis – Ir ao Mundo e voltar



Olhar o mar pela primeira vez, descobrir o azul reflectido numa imensidão de água, voar a bordo de um avião cheio de crianças como eles, atravessar o continente africano para o europeu, descobrir montanhas e escarpas, ver ao vivo cores iguais às desenhadas com lápis trazidos de longe, andar de carro em cidades grandes, encadeantes de luzes e néons, ruidosas, barulhentas e confusas, mas cheias de movimento e vida, pisar a areia molhada da praia e construir um castelo igual aquele que acabaram de visitar, ir a museus e ver marionetas, dinossauros, espadas e tambores, correr em parques naturais e jardins, andar de comboio e de barco, descobrir a água corrente, saber o que é abrir uma torneira e a água não parar de jorrar, tomar um banho diário, descobrir esse objecto chamado de sanita, escovar os dentes diariamente, comprar roupa e sapatos, aprender a comunicar num novo e estranho idioma, assistir a desenhos animados numa sala de cinema, ter comida na mesa com fartura e refeições tomadas várias vezes ao dia, pensar que aquilo que sobra faria falta na casa lá longe, usar um garfo e uma faca para levar a comida à boca, deitar numa cama para dormir e chorar com saudades da mãe que ficou longe e que chorará também ela na sua tenda de Tinduf, regressar depois ao acampamento e chorar com saudades do que se acabou de conhecer.

Ir ao Mundo e voltar. É isto que fazem, todos os Verões, durante os meses de Julho e Agosto, cerca de 8.400 crianças saharauis dos 8 aos 12 anos. Com o aproximar do tempo mais quente e seco inaugura-se o programa governamental saharaui "Férias em Paz"/ "Vacaciones en Paz". Vários voos charter partem de Tinduf completos de crianças a caminho de umas férias na Europa. Um verdadeiro "direito a viajar" consagrado pelos responsáveis saharauis. Os seleccionados (os critérios são a idade e o sucesso escolar, - a quem reprova um ano escolar não é permitido repetir o programa) deixam as temperaturas impossíveis do Verão nos campos de refugiados na Argélia e vão viver dois meses em Espanha, França, Itália ou outro destino, junto de famílias estrangeiras de acolhimento e/ou em colónias de férias. Os custos são totalmente suportados pelas famílias de acolhimento, em conjunto com várias associações europeias de apoio à causa saharaui.

A razão de ser deste programa foi-nos explicada pelo secretário da Juventude Saharaui. Segundo Mouloud Fadel, este programa é uma forma de "as crianças conhecerem uma sociedade diferente, saberem que é possível uma vida diferente daquela vivida nos acampamentos e que devem lutar por isso". Para além de permitir às crianças a visão deste mundo novo fora dos acampamentos, o programa "Férias em Paz"/ "Vacaciones en Paz" tem objectivos políticos que os responsáveis não escondem. "Estas crianças são embaixadores da Paz no sentido em que vão dar a conhecer às famílias e respectivos países europeus a realidade em que vive o povo saraui". Uma forma de espalhar a causa através das crianças. Também a questão financeira está bem presente. A criação de laços afectivos entre as crianças saharauis e as famílias europeias permite "uma certa auto-suficiência das famílias nos acampamentos e independência da ajuda humanitária organizada, isto porque, as famílias passam a enviar dinheiro, bens e a visitar as crianças nos acampamentos". Desta forma, o chamado "direito a viajar" das crianças é uma forma de dotar o povo saharaui de alguns recursos e uma oportunidade de ajudar à resistência através da solidariedade directa, mais independente de conjunturas económicas e interesses políticos.

O programa visa ainda possibilitar a realização a algumas crianças de cirurgias e tratamentos médicos que não podem ser realizados em Tinduf, por falta de condições. Foi o caso de Abel, lembram-se?
Portugal é visto, até pela proximidade geográfica, como um país com potencial para acolhimento destas crianças, tanto para realização de cirurgias como para as receber num período de férias. No entanto, e até agora, apenas um número reduzido de portugueses tem recebido crianças saharauis. Existem excepções, claro. Falaremos disso mais tarde.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Notícias na rede: SADC lamenta situação política prevalecente no Sahara Ocidental

O embaixador sul-africano e presidente da missão permanente da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) na ONU, Baso Sangqu, lamenta em nome dos 14 Estados membros a situação política prevalecente por mais de três décadas no Sahara Ocidental, sem contudo existir qualquer solução.

Num comunicado enviado quarta-feira à Angop [Agência de notícias angolana], a SADC reitera que "para o povo do Sahara Ocidental, o conflito dominante naquele país é uma luta pela auto-determinação e que está baseada nos princípios da descolonização, da promoção dos direitos humanos, da legalidade internacional, assim como da estabilidade e da segurança do continente Africano". "É uma luta na qual o povo da nossa sub-região africana está completamente engajada"-sustentou.

Assim, os Estados membros apelam à Frente Polisário, que representa o povo do Sahara Ocidental, e ao Reino dos Marrocos no sentido de participarem nas negociações directas durante o processo Manhasset baseado no plano de ambos apresentado ao Secretário-Geral. O texto sublinha que a SADC deseja que as duas partes manifestem nas conversações uma vontade negocial sem pré-condições e de boa fé, em conformidade com a resolução 1754 (2006) do Conselho da Segurança (CS) da ONU.

"A República Árabe Saharaui Democrática é membro fundador da União Africana (UA) e foi da Organização da Unidade Africana (OUA). Ao mesmo tempo, o reino dos Marrocos é igualmente um país africano amigo", recordou Baso Sangqu no comunicado.
O texto acrescenta que "a SADC continua esperançada que as duas nações africanas possam encontrar um meio capaz de resolver o seu diferendo que permanece como grande desafio para o nosso continente". "O objectivo é tentar alcançar uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável", rematou.

Os Estados Membros da SADC apelaram ao Concelho da Segurança a agir decisivamente e ajudar as partes na resolução do seu conflito na base dos princípios legais estabelecidos sobre a auto-determinação. O diplomata sul-africano disse, por outro lado, que a organização da África Austral manifesta a sua preocupação perante a incessante exploração de recursos naturais do Sahara Ocidental. "Essas actividades violam os princípios legais internacionais aplicáveis sobre os territórios não-autónomos", prosseguiu. "Para tal, é importante recordar que o Sahara Ocidental permanece como a última colónia do continente africano e faz parte da lista das Nações Unidas de Território Não-Autónomos desde 1963, altura em que se encontrava sob a colonização espanhola", indica a nota.

O embaixador Baso Sagqu aproveitou a oportunidade para felicitar o novo enviado pessoal do secretário-geral da ONU, Christopher Ross, e encorajou-o no sentido de empreender todos os esforços necessários para garantir uma solução justa do conflito, no âmbito das resoluções da ONU sobre a questão da descolonização.

Retirado de www.portalangop.co.ao

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Shukran شكراًَ


Na foto, a prova de como a necessidade aguça o engenho: o pátio interior do hospital de Dakhla foi aproveitado para uma plantação de algodão, material que, como se sabe, dá muito jeito num hospital.
Faltou dizer, no post anterior, que os medicamentos que recolhemos em Portugal, junto da família e amigos que tão prontamente quiseram ajudar, ficaram aqui com Matala e Ali Maulud. O nosso shukran a todos.

Médicos deste Mundo






Matala, estatura média, calças de ganga, t-shirt e boné azul, parece um puto. Está de folga. Esta semana o turno no hospital de Dahkla pertence ao colega Ali Maulud. Têm os dois 28 anos, alguns dos quais passados em Cuba a estudar Medicina. Viram o azul turquesa das Caraíbas e outras cores que não conheciam antes, ouviram os ritmos de Compay, Milanes, Omara e Orishas, passearam pelas ruas de arquitectura colonial onde desfilam corpos morenos "merengados" e parcamente vestidos, sentiram a vibração da ilha, conviveram com a cerveja e álcool interdito aos muçulmanos, cheiraram a fruta fresca nos mercados. Cursos concluídos, doutores feitos, deixaram a paleta de cores berrantes da ilha caribenha e voltaram para a monocromia de Tinduf.
Assumem agora a função de médicos residentes no hospital daquela província, contando com o apoio permanente das representações espanhola e grega da ONG Médicos do Mundo. Os dois alternam a cada semana e, nessas alturas, são responsáveis 24 horas por dia. Uma semana inteira a atender sozinhos todos os doentes que chegam, numa população de 20.000 pessoas. 24 horas por dia. “Há alturas em que é calmo, mas outras há em que chegam quarenta pacientes num dia”, dizem. Matala e Ali Maulud têm como inimigos a alimentação deficiente, e consequentes má nutrição, anemias e desidratação. Combatem um elevado número de doenças intestinais, gastrites e febres, devido à má qualidade da água.
Para além das crianças e dos mais velhos, também as mulheres são muito afectadas. Ibrahim é o único especialista de ginecologia na região e vem ao hospital de Dakhla uma vez por mês. Como consequência do trabalho duro e do peso carregado (sacos de comida da assistência humanitária e água), as mulheres sofrem muitos abortos espontâneos e rupturas intra-uterinas. O uso de pensos higiénicos, por contraposição aos antigos trapos, tem sido uma conquista progressiva para evitar infecções.
Matala mostra-nos todos os cantos do hospital, as alas das várias especialidades, a enfermaria, a secção de maternidade. Nesta última, apesar de “até haver uma incubadora e esterilizador, só funcionam quatro horas por dia”. Não há electricidade e o sistema de aproveitamento solar não chega para mais. Quando surge algum problema maior, duas ambulâncias estão a postos para levar os pacientes até à unidade hospitalar de Rabuni, num percurso indescritível de bem mais de uma hora.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Notícias na rede: WSRW solicita ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que exija o fim da pilhagem


A ONG internacional Western Sahara Resource Watch enviou no passado dia 21 de Abril, uma carta a todos os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, solicitando o fim da pilhagem do Sara Ocidental ocupado.

A Western Sahara Resource Watch, cujo objectivo é assegurar a aplicação correcta do direito internacional ao Sahara Ocidental, pretende transmitir o seguinte:

1. Órgãos relevantes das Nações Unidas têm demonstrado preocupação com a questão do Sahara Ocidental há várias décadas. A Assembleia Geral tem mantido, consistentemente desde 1966 (Resolução 2229), que a população originária do Sahara Ocidental tem o direito à auto-determinação. O Conselho de Segurança, desde 1988 (Resolução 621) e, para salvaguardar a paz e segurança no Sahara Ocidental, tem insistido na necessidade de levar a cabo um referendo para a auto-determinação do povo saharaui. O Tribunal Internacional de Justiça afirmou no seu Parecer Consultivo sobre o Sahara Ocidental, datado de 16 de Outubro de 1975, que o direito à auto-determinação da população originária do Sahara não está, de modo algum, em dúvida.

2. A Western Sahara Resource Watch chama a atenção dos membros do Conselho de Segurança, para o facto da exploração dos recursos naturais do Sahara Ocidental estar a ser realizada em desrespeito de importantes princípios legais internacionais, incluindo aqueles que estão reflectidos nas resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas (incluindo as resoluções 62/120 e 63/111) e Artigo 1 do Pacto Internacional relativo aos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, ambos ratificados pelo Reino de Marrocos. Tal como foi estabelecido em 2002, de forma bem clara, pela ONU: “…se se verificar uma posterior actividade de exploração, sem ter em conta a vontade e interesse da população do Sahara Ocidental, aquela estará em violação dos princípios do direito internacional aplicáveis à exploração de recursos minerais em territórios não autónomos”.

3. A exploração ilegal dos recursos naturais do Sahara Ocidental tem, como um dos objectivos, a consolidação da ocupação militar e colonização ilegal do Sara Ocidental pelo Reino de Marrocos. Os proveitos dessas actividades são utilizados não apenas para financiar uma presença militar ilegal, mas para Marrocos trazer novos imigrantes para o território, colocando-os ao serviço desta exploração e, deste modo, produzir conflitos sociais e económicos que estão a colocar em risco a paz e segurança do território.
Os incidentes de 21 Julho de 2008 na região de Dakhla (antigamente chamada de Villa Cisneros), onde colonos marroquinos atacaram os poucos saharauis com emprego na indústria pesqueira, representam um motivo de alarme que deve ser tido em consideração.

Pelas razões acima mencionadas, a Western Sahara Resource Watch solicita que o Conselho de Segurança, na sua resolução da próxima semana, decrete uma paragem imediata das actividades de exploração dos recursos naturais, perpetrada pelo Reino de Marrocos e por outros interesses estrangeiros em desrespeito das normas de direito internacional. (Tradução nossa)

Para mais informações contactar:
Cate Lewis, International Coordinator, Western Sahara Resource Watch
lewis.cate@gmail.com
+61 407 288 358
www.wsrw.org
WSRW no Facebook

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Duas Dakhlas, um destino




Dakhla é uma cidade, aconchegada numa península, na costa atlântica do Sara Ocidental. Tem prédios, estradas e rotundas, semáforos. Tem praias, surfistas, praticantes de outros desportos naúticos, como o kitesurfing, em busca do vento e das ondas. Tem festivais de música e turistas...

Claro que não foi esta a Dakhla onde estivemos. A “nossa” Dakhla é outra. Os campos de refugiados de Tinduf estão divididos em vilayas e dairas (correspondentes aos nossos distritos e freguesias) baptizadas com os nomes de várias cidades existentes no Sara Ocidental. Uma forma de não esquecer o passado e manter vivo o sentimento de casa. A vilaya de Dakhla é o acampamento mais longínquo de Tinduf, a sudoeste do aeroporto. É também aquele onde se registam as maiores carências ao nível da saúde, educação, transportes e comunicações. E tem o nome da cidade banhada pelo mar que o povo saraui reclama como sua.

A vida no acampamento de Dakhla é dura. A paisagem é desértica, pedregosa e infértil, com barracas de tijolo cru e tendas de lona, as chamadas jaimas, despojadas de tudo. Dentro dessas “casas”, várias janelas permitem que o ar circule, tapetes coloridos cobrem o chão onde se dorme, uma mesa no meio serve de apoio às refeições, o telhado é de zinco. Não há água corrente, a luz é esporádica e não é para todos, vem ao ritmo de baterias carregadas com energia providenciada por painéis fotovoltaicos. Não se vislumbra vegetação. A água é escassa, de má qualidade e extraída através de furos.

Os ventos fortes, baptizados de sirocco, soprados do deserto em direcção ao Norte de África, causam tempestades de quando em vez. Outras vezes, são as raras chuvas torrenciais que provocam desabamentos. Uma das últimas destruiu parte de uma escola frequentada por 630 crianças e jovens, que o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) vai ajudar a reconstruir.

No Verão as temperaturas atingem o calor sufocante dos 50 graus, nas noites de Inverno podem ir aos negativos. Num lugar que os dicionários chamariam de “inóspito”, os sarauis com a ajuda humanitária internacional têm construído algumas infra-estruturas como escolas, hospitais, associações recreativas, pequeno comércio. Na tentativa de minorizar os efeitos das condições em que se encontram e possibilitar a "vida".

domingo, 26 de abril de 2009

To be Saharawi, o filme




O filme To be Saharawi, a luta de um povo pelo direito a existir será a concretização de um sonho que um conjunto de pessoas se atreveu a sonhar. Joaquim de Almeida, actor internacional, Rui Reininho, músico, João Vilhena, fotógrafo, José Manuel de S. Lopes, produtor e realizador, Eberhard Schedl, fotógrafo e camera, Gerardo Fernandes, produtor executivo, Gita Cerveira, director de som, Clara Ferrão, directora de casting, entre outros, partilham esse sonho comum e estão juntos no objectivo de produzir o filme.

As intenções são claras. “Perante uma situação, a do Sahara Ocidental e do povo saharaui, que se arrasta há mais de três décadas, onde todos os direitos pelos quais a sociedade ocidental se diz defensora são ignorados e subvertidos, graças à cobiça duns e à hipocrisia doutros, um grupo de pessoas, ligadas ao cinema, à música e ao jornalismo, decidiu empreender a produção dum filme que mostre ao mundo o que é ser saharaui, o que é ser colonizado, por outro povo que há bem pouco ainda era colónia, o que é ser refugiado e ver os seus filhos nasceram com a condição de refugiados”.

Segundo nos disse o realizador José Manuel de S. Lopes “tem sido duma extrema dificuldade a concretização do projecto, devido ao desinteresse e desconhecimento geral do assunto. E como é um projecto que envolve custos maior a dificuldade”. Ainda assim, está previsto o início da rodagem para este ano, no mês de Setembro. Esperamos que To be Saharawi passe nos ecrãs de todo o mundo brevemente.

Mais informação sobre o filme aqui

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Girls just wanna have fun


Uma adolescente é sempre uma adolescente a qualquer latitude ou circunstância. Este foi um dos muitos ensinamentos que vieram com Dakhla. Com o aproximar do final do dia preparávamo-nos para assistir ao pôr-do-sol nas dunas. E, pela noite fora, havia uma festa para a delegação portuguesa. Connosco no jipe, seguia Lamira, 18 anos, castelhano perfeito aprendido durante três anos a viver em Sevilha, nossa companheira durante a estadia em Dakhla. No caminho para as dunas, Lamira troca umas palavras com o condutor, marcha invertida, paragem em casa (a casa que naqueles dias foi a “nossa” casa), Lamira desce do carro. Ninguém percebeu porquê e todos se impacientavam com o Sol que insistia em fazer o seu périplo até ao horizonte. “Será que vai avisar os pais?”, “Será que fica em casa?”, “O que será que aconteceu?”. Lamira volta a entrar no jipe, sorridente e triunfante. Foi mudar de roupa. A melfha (lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauis, a partir do momento em que têm a primeira menstruação) que veste por cima das calças de ganga e dos ténis, já não é azul turquesa mas em tons de castanho. Espanto e risos incrédulos na comitiva. O jipe segue rumo às dunas a todo o gás. Mas já não fomos a tempo. Sobrou apenas uma nesga de Sol a fugir-nos duna abaixo. Houve quem ficasse meio aborrecido, houve quem achasse piada ao inusitado da coisa. Pôr-do-sol haverá todos os dias, festas nas dunas de Dakhla nem por isso, terá pensado Lamira que, indiferente à desilusão portuguesa, esteve radiosa até ao fim, por certo muito mais confiante no seu traje de festa. Uma miúda de 18 anos será sempre uma miúda de 18 anos, pensei, solidária na vaidade feminina. A festa foi bonita, mas muito melhor foi o conforto de sentir a normalidade possível da vida no campo de refugiados de Dakhla, pela melfha de Lamira.

Acordar no deserto




Primeiro são as cores que vêm com o nascer do Sol, o sabor do chá que percorre lentamente o seu caminho desde o bule até cair no copo espalhando aroma a ervas e açúcar, em seguida o silêncio interrompido pela banda sonora que surge através dos sons dos animais que acordam também, a brisa fresca que nos toca no rosto e sabe melhor porque é rara, sabemos que já não irá durar mais de meia hora. No fim, a sensação de espaço que nos inunda. Espaço sem tempo. Acordar no deserto são os cinco sentidos à solta num festival que é só deles. É acordar mais perto de nós próprios. É acordar com a consciência do nada e do tudo que somos. É acordar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

De Lisboa a Tinduf é um dia de distância


Depois de uma hora e meia a voar desde Badajoz, segue-se uma paragem em Argel para reabastecer e trocar de tripulação. Não saímos do avião mas ninguém se importa, o cansaço começa a apertar e já é de noite. Despeço-me do meu companheiro de lugar, argelino e mecânico do avião, que não segue para Tinduf - “nunca lá fui” - e chega agora a casa. “Não se esqueça. Diga aos seus amigos que indústria não é civilização”, diz-me ele em inglês.

O remate de uma conversa de uma hora sobre o mundo islâmico e o ocidente. Ele, que viveu em Seattle e em Lyon, olha com tristeza “para a ideia que a Europa e Estados Unidos têm do mundo árabe”. “Uma civilização é aferida por aquilo que um povo é capaz de dar aos outros. Como é que os Estados Unidos são uma civilização? O que dão eles ao resto do mundo? Armamento? Guerra? Destruição? Isso não é civilização. Indústria não é civilização. Não se esqueça”. Não me esqueço, prometo, nem me esqueço do conforto que é - face ao medo crescente que tenho em andar pelos ares, proporcional às milhas acumuladas ,- viajar ao lado de um mecânico de aviões. Segue-se o suplício e são mais duas horas e meia até Tinduf.

Com os pés, finalmente, em terra firme sente-se o calor de um dia de Verão, quando já passa da meia-noite. Á nossa espera os jipes e respectivos condutores (repletos de paciência e boa disposição), que nos irão acompanhar durante toda a viagem. De Tinduf vamos ainda ter de ir para Dakhla, o mais longínquo dos acampamentos, onde iremos ficar três dias. Depois de uns quilómetros tranquilos pelo asfalto os jipes rodam o volante para a esquerda, saem da estrada e “eh lá!”, iniciamos outro caminho. Um momento, aquilo não era um caminho. Aquilo era um martírio, de pó, saltos, cabeças a bater no tecto, pés e pernas dormentes pelo peso das mochilas, malas e malotes que havia por todo o lado e a prole de Júlio Iglésias a guinchar no rádio (não faz sentido nenhum, bem sabemos). Não sei quanto tempo passou. Pode ter sido só uma hora ou duas, mas pareceu uma eternidade. “Já só falta meia hora”, frase ouvida dezenas de vezes, “Já só faltam cinco minutos”, frase ouvida outras tantas. Houve quem quisesse desistir “se já só faltam cinco minutos, vou a pé”. Com (muito) custo e algumas pausas para ver o céu do deserto, aquele céu que só existe no deserto, lá chegámos mais ou menos inteiros.

De madrugada, à nossa espera algumas pessoas das famílias que nos iam acolher. Na penumbra da noite, meio cegos pela luz dos faróis dos carros, grupos dividiram-se num ápice e, o nosso, seguiu uma senhora que não dizia palavra. A chegada à salinha com apenas uns tapetes no chão foi a visão do paraíso e soube logo a casa. Saco-cama estendido, amanhã há mais.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Abel

O primeiro dia desta jornada começa sob os auspícios do betão e aço de Calatrava com o encontro na Gare do Oriente e início da viagem às onze da manhã. Segue-se cerca de 220 quilómetros com o autocarro a rolar, adeus castelo de Palmela e saída para Setúbal, olá paisagem alentejana, um bem haja cegonhas nos postes de alta tensão da A6, a última paragem para um “café a sério” numa estação de serviço lusa, a chegada ao aeroporto de Badajoz três horas antes do voo da Air Algerie.

No aeroporto minúsculo amontoam-se centenas de caixas, caixotes, malas de viagem, mochilas a rebentar pelas costuras. O peso da solidariedade feito de alimentos, medicamentos, roupa e brinquedos, desfez em fanicos os nervos do pessoal do check in, mas coube todo no avião. Aproveitando a semana santa, associações humanitárias espanholas vão em força para Tinduf e levam tudo quanto podem. Muitas destas pessoas acolhem crianças sarauis nas férias do Verão e agora vão fazer-lhes uma visita. No meio da confusão espanhola e da impaciência tuga da espera, descubro Abel.

Através do vidro que separa a sala de embarque do bar do aeroporto duas crianças, uma de cada lado, simulam beijos e trocam ternuras. O quadro é irresistível e aproximo-me. Abel é um menino saraui de 14 anos, vestido com calças de ganga, pólo e ténis Puma. Nasceu nos campos de refugiados de Tinduf com um problema renal e teve de ir para Espanha para lhe ser retirado um rim. Desde há nove anos que vive em Espanha com a mãe, pai, um irmão e uma irmã adoptivos e vai agora, mais uma vez, visitar a família de sangue a Tinduf. Enquanto Abel e a irmã de sete anos fintam as saudades que irão sentir na próxima semana, Maribel, a mãe espanhola conta que a história da família não tem sido fácil. Alguns desentendimentos com a família de origem só solucionados com “diligências efectuadas ao mais alto nível com os representantes sarauis em Madrid” e muitos milhares de euros gastos, incluindo bilhetes de avião que eram enviados e nunca utilizados.

A revolta pelas condições em que vive a família de Abel também é muita “a Argélia mete-os para lá num pedaço de território, num deserto que não quer para nada…E o cheiro…Aquele cheiro dos acampamentos não é identificável com mais nada. Verás”. Mas sorri quando mostra as fotografias de Abel no telemóvel e diz que todos lhe chamam Ronaldinho, por causa do cabelo e do jeito para a bola do miúdo. Longe das complicações dos adultos, já no avião que parte ao final da tarde, Abel diz-me que vai conhecer uma irmã que, entretanto, nasceu enquanto ele estava em Espanha. E está feliz. “Vou ver alguns amigos, não tantos como os que tenho em Espanha. Gosto de ir, mas por pouco tempo, e depois voltar”. Até Domingo, Abel.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Un grito desde el Sahara




Un grito desde el Sahara é um documentário de 2008 realizado pela organização não governamental basca Mundubat. A violência do regime marroquino, a indiferença da comunidade internacional, a luta pacífica pela recuperação do território e soberania são alguns dos ângulos sobre os quais testemunham activistas no campo dos direitos humanos, jornalistas, dirigentes políticos e a própria população saharaui.

No entanto, a força maior destes depoimentos vem das vozes das mulheres saharauis entrevistadas. Umas muito jovens, outras mais velhas contam na primeira pessoa, em castelhano ou inglês perfeito, a sua história. Uma história de “mulheres lutadoras, rebeldes que, quando se propõe a algo conseguem atingi-lo”, como descreve um dos homens saharaui.

Nos campos de Tinduf, com temperaturas entre os 55º no Verão e negativos nas noites de Inverno, a sobrevivência de famílias inteiras depende destas mulheres. “A vida de um refugiado aqui é muito dura. Não sente que é livre. Queres mostrar aos teus filhos outro lugar e não tens condições para fazê-lo. E há muitas outras coisas…Outras coisas na nossa mente…que a língua não consegue expressar”, lamenta uma delas neste documentário que constitui uma boa introdução ao tema.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Group Doueh

If you think you’ve heard all the great electric guitar styles in the world, think again. This Saharan sand-blizzard of fine-crushed glass will grind your face to a bloody pulp. Group Doueh play raw and unfiltered Saharawi music from the former colonial Spanish outpost of the Western Sahara. Doueh (pronounced “Doo-way”) is their leader and a master of the electric guitar. He’s been performing since he was a child playing in many groups before finally creating his own in the 1980’s. Doueh says he’s Influenced by western pop and rock music especially Jimi Hendrix and James Brown. His sound is distorted, loud and unhinged with an impressive display of virtuosity and style only known in this part of the world. His wife Halima and friend Bashiri are the two vocalists in the group. Saharawi songs are from the sung poetry of the Hassania language. The music is based on the same modal structure as Mauritanian music, however, Doueh’s style is a looser appropriation infused with a western guitar scope, one that relies, in his words, as much on Hendrix as it does traditional Sahrawi music. It also adds a playful pop element that rarely filters through in this region. Doueh has turned down countless offers from Morocco and Europe to release his music but he decided to offer us access to his homemade recordings and photo archive for this amazing debut LP. This is a one-time pressing of 1000 copies, the first Sublime Frequencies vinyl release. Pressed on 180 gram vinyl and comes in a gatefold full color jacket stocked with great photos of the musicians and liner notes by Hisham Mayet.

Já está esgotado, mas pode ser que volte a estar disponível no site da editora, Sublime Frequencies.

Estarão na Gulbenkian em Junho, segundo informação no Juramento Sem Bandeira.

terça-feira, 31 de março de 2009

“Não existe maior dor no mundo que a perda da sua terra natal”*




No princípio era o vazio, o desconhecimento quase total, noções ténues, reminiscências de um filme já visto, recordação vaga de uma notícia já lida algures. “Povo Saharaui”, “campos de refugiados de Tinduf”, “Frente Polisario”, tudo conceitos disformes, realidades distantes do nosso quotidiano que vivem a menos de 2.000 quilómetros. Começam então as pesquisas, a investigação, a início meio básica feita do “saber” moderno e perigoso alcançado nas enciclopédias cibernéticas, depois à volta de conversas com quem já esteve no terreno, documentos oficiais e reportagens antigas. A pouco e pouco, os contornos obscuros do mapa com cores garridas ganham sentido, os rostos ora belos, ora sofridos desse povo são conhecidos através de documentários que alguém deixou na internet para chegar a todo o mundo. Pelo menos ao mundo que a eles quiser chegar. Surge-nos então o Povo Saharaui, povo de homens e mulheres, muitos deles em fuga às perseguições, à tortura, à morte, a viver numa terra emprestada, que não é nem será nunca a sua. Povo de crianças que sonham com a terra que foi a dos seus avós e esperam que seja um dia também a deles. "De Tinduf até ao Mar”, assim se chama este registo feito blog, porque assim se espera que seja o trajecto desta gente que iremos conhecer em Abril. Gente como a gente, que não pode partir para uma aventura num período de férias qualquer.

*Eurípides, dramaturgo grego

A Liberdade...

AS RAÍZES:

A Frente Polisario (em árabe:جبهة البوليزاريو), é o acrónimo de Frente Popular de Liberación de Saguía el Hamra y o de Oro, como era conhecida a antiga colónia espanhola do Sahara Ocidental. É um movimento político e militar rebelde que luta pela independência de Marrocos e pela autodeterminação do povo Sarauí.

A Polisario é a sucessora do Movimiento para la Liberación del Sáhara da década de 60, dirigida por Bassiri (na foto), desaparecido por acção da Legião Espanhola nas revoltas de Zemla (actual El Aaiún), uma manifestação contra a colonização durante a ditadura de Franco, em 1970. É desde então considerado o Pai da independência sarauí.

Um grupo de estudantes, liderados por El-Uali Mustafa Sayyid, ou Luali (1950-1976), formam a Polisario a 10 de maio de 1973 em Smara, e a 20 iniciam os confrontos armados, seguindo uma estratégia de luta de guerrilha a partir do deserto. Em 1975 a autoridade militar espanhola era já só efectiva nas cidades costeiras, devido ao enfraquecimento do Franquismo e às investidas da guerrilha.

A OCUPAÇÃO MARROQUINA:

A 6 de Novembro de 1975, Marrocos iniciou a Marcha Verde, estratégia do rei Hassan II de ocupação do Sahara Ocidental que consistiu no envio de 25.000 soldados e 350.000 civis munidos de bandeiras verdes e cópias do Corão para a região.

A 14 de Novembro de 1975, decorrem os acordos de Madrid entre representantes de Espanha, Marrocos e Mauritânia. Daí resulta uma declaração política na qual Espanha cede a administração dos territórios aos outros dois países, não reconhecendo no entanto soberania a nenhum dos dois. Há indícios da existência de anexos secretos ao tratado que estipulavam a concessão a Marrocos de 65% da empresa Fos Bucraa, encarregue da exploração das ricas bacias de fosfatos existentes nesta região do Sahara em troca de direitos de pesca a Espanha para 800 barcos durante 20 anos.

Marrocos ocupou Smara, a cidade berço da Frente Polisario, a 27 de Novembro de 1975, causando o êxodo de Sarauís para a Argélia escapando a represálias dos marroquinos por apoiarem o movimento independentista. Durante a fuga, as forças aéreas marroquinas disparam bombas de fósforo branco e bombas de fragmentação sobre as populações sarauís. A Amnistia Internacional estimou as baixas em cerca de 530 pessoas. Outros ficaram nos territórios ocupados e Marrocos inicia uma política de migração de marroquinos para a região, para reduzir a expressão do povo Sarauí até então maioritário, e este passa a ser descriminado na sua própria terra. As manifestações de sarauís sucedem-se, sendo duramente reprimidas, com detenções e relatos de torturas, segundo a Associação de Familiares de Desaparecidos e Presos Políticos Sarauís. A imprensa marroquina apresenta sempre os manifestantes como membros da Frente Polisario.


Desde 1975, a Frente Polisario encontra-se cediada em acampamentos de refugiados em Tinduf (na foto), no territorio argelino. Ainda nesse ano as Nações Unidas reconhecem o movimento e a 27 de Fevereiro de 1976, a Frente proclama a República Árabe Saharaui Democrática (RASD) desde Tifariti, na parte do território controlado por Marrocos. A RASD é membro fundador da Organização para a União Africana. Foi reconhecida por 85 países, na sua maioria africanos ou latino-americanos. Outros estados não reconhecem a RASD, mas sim a Polisario como representante legítimo dos sarauís.

A 5 de Agosto de 1979, a Mauritânia cede à guerrilha e entrega a sua parte do Sahara Ocidental à Polisario, mas esse acto não é reconhecido por Marrocos que passa a anexar esse território nos seus mapas.

O MURO:

Marrocos inicia em 1980 a construção de um muro que em Junho de 1982 já envolve 3 das maiores cidades da anterior colónia espanhola, incluindo El Aaiún. A construção do muro vai-se extendendo ao resto dos territórios ocupados, e actualmente, o território do Sahara Ocidental está efectivamente dividido por um muro com mais de 2.000 km de comprimento que se prolonga de norte a sul do território, separando o território ocupado militarmente por Marrocos a Oeste e que inclui toda a costa e as minas de fosfatos de Bucraa, e a região de deserto a Leste administrada pela Frente Polisário, com soberania da RASD. O muro é vigiado por mais de 100.00 soldados marroquinos, está equipado de radares e rodeado de minas anti-pessoais.


Os combates e a construção do muro decorrem até 6 de Setembro de 1991, quando é assinado o cessar fogo.

O REFERENDO:

A Missão das Nacõess Unidas para o referendo no Sahara Ocidental, MINURSO, é um organismo estabelecido pelo Conselho de Segurança da ONU em Setembro 1991 para monitorizar o cessar fogo e delinear o processo de elaboração de um referendo à população do Sahara Ocidental sobre o futuro da região. Segundo a Amnistia Internacional e o Human Rights Watch, o governo e as tropas de Mohammed VI, mais fortes tanto a nível militar como político, impedem a realização deste referendo desde 1992. Segundo a Frente Polisario, este adiar prende-se ao facto da população Marroquina na região vir a aumentar desde então, sendo actualmente maioritária. Devido à inexistência de consenso relativamente à elegibilidade dos cidadãos para votar no referendo, este encontra-se ainda por realizar.

O HOJE:

O Sahara Ocidental é um dos territórios mais escassamente povoados do mundo e possivelmente o de menor densidade populacional. Em Julho de 2004 existiam no Sahara Ocidental 267.405 pessoas. A população Sarauí originária da região é hoje de 250.000 pessoas (70.000 em 1974), sendo que destes, 175.000 vivem em acampamentos de refugiados em Tinduf, Argélia. São assitidos pela ONU e estão situados numa região onde escasseia a água e os alimentos. Estes acampamentos encontram-se divididos em 4 distritos (Wilayas) que por sua vez se dividem em bairros (Dairas). As Dairas foram denominadas segundo nomes de cidades do território ocupado por Marrocos e repartem-se da seguinte forma pelas 4 Wilayas:

El Aaiún: Hagunia, Amgala, Daora, Bucraa, Edchera y Guelta.

Smara: Hauza, Ejdairia, Farsía, Mahbes, Bir Lehlu y Tifariti.

Auserd: Agüenit, Zug, Mijec, Bir Guenduz, Güera y Tichla.

Dajla: Jraifia, Argub, Umdreiga, Bojador, Glaibat el Fula, Ain Beida y Bir Enzaran.