domingo, 24 de maio de 2009

Sara Ocidental: À espera de uma vida normal

Reportagem publicada na revista Notícias Sábado do Diário de Notícias/Jornal de Notícias, 23 de Maio de 2009
por Joana Simões Piedade

A NS’ visitou um campo de refugiados do Sara Ocidental em Tinduf, no Sudoeste da Argélia. Em casas de adobe, sujeitos a dificuldades de alimentação e deficientes cuidados de saúde, rapazes e raparigas que já viveram com famílias de acolhimento em países europeus, incluindo Portugal, têm sonhos iguais aos de quaisquer outros da sua idade.

SÃO CINCO da manhã. Lamira, 18 anos, prepara-se para a primeira oração do dia. Dever cumprido, junta-se à mãe que, sentada no tapete colorido que constitui a única mobília daquela sala de quatro paredes feitas de adobe, dá início ao ritual da preparação do chá. Vários copos pequenos são alinhados em fila, o pote com água colocado nas brasas, o líquido fervido é despejado num dos copos e, depois, passado de copo em copo até criar espuma. Um ritual que irá repetir-se inúmeras vezes ao longo daquele dia.
Estamos num dos acampamentos de refugiados de Tinduf, deserto do Sudoeste da Argélia, onde habitam cerca de 165 mil sarauís da antiga colónia espanhola do Sara Ocidental. A paisagem é desértica, pedregosa e infértil, com barracas de tijolo cru e tendas de lona (chamam-lhes jaimas) despojadas de tudo, sem luz nem água corrente. Não se vislumbra vegetação, a água é escassa e extraída através de furos. Ventos fortes, o chamado siroco, soprados do deserto em direcção ao Norte de África, causam tempestades de quando em vez. As raras chuvas torrenciais provocam desabamentos.

NO VERÃO, as temperaturas atingem o calor sufocante dos cinquenta graus, nas noites de Inverno podem ir aos negativos. Como podem viver Lamira e a família ali? Fugiram para a Argélia após a retirada da Espanha em 1975 e consequente anexação do Sara Ocidental a Marrocos. Agora esperam.
Esperam voltar à sua terra de origem banhada pelo oceano Atlântico. Em 1976, o movimento de libertação Frente Polisário autoproclamou a independência da República Árabe Sarauí Democrática (RASD) e, desde aí, tem criado no Sudoeste da Argélia estruturas de um Estado, ainda à espera de o ser. Para não esquecer o passado, os acampamentos de refugiados têm os nomes das cidades do Sara Ocidental controladas por Marrocos há 33 anos.
Lamira e a família de sete pessoas moram em Dakhla, o mais longínquo dos quatro acampamentos, situado a sudoeste de Tinduf, junto à fronteira com a Mauritânia, mais perto das dunas de areia do Sara do nosso imaginário. Cerca de 95 por cento da população são mulheres. Os homens prestam serviço militar e vão para longe de casa, para a «frente», apesar de não haver obrigatoriedade para se alistarem nem guerra onde disparar. Regressam de meses a meses, consoante a permissão.
Contrariando algumas práticas estabelecidas e outras tantas ideias feitas no que toca aos países árabes, perante esta situação, cabe às mulheres um papel fulcral na organização e gestão dos campos de refugiados: são a maioria nos conselhos regionais e representam 34 por cento do Parlamento Sarauí. Revezam-se entre a organização da casa e das famílias, cursos profissionais, actividades de apoio social aos mais carenciados, trabalho associativo. Manterem-se ocupadas é vital para resistir ao vazio da espera.

OS DIAS no acampamento são longos e há muito pouco para fazer. As crianças e os jovens frequentam a escola durante a manhã e ao final da tarde, evitando as horas de maior calor. Como Lamira. A jovem fala num castelhano perfeito, aprendido na escola e nos três anos que viveu e estudou em Sevilha com uma família de acolhimento espanhola.
Sentada no chão, com as irmãs mais novas encavalitadas, mostra com satisfação as fotografias tiradas durante esses anos. Irreconhecível à primeira vista, é uma outra menina sem a sua melfha, o lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauís, e que Lamira veste por cima das calças de ganga e ténis. Em cima de uma scooter, com o cabelo frisado, top de alças colorido e brincos, maquilhada para uma festa ou vestida de sevilhana. Depois em Cádis, no casamento de uma «irmã», vai apontando com orgulho a família emprestada.
Nos álbuns vindos de Espanha aparece sempre de óculos postos, os mesmos que se recusa a usar no deserto. «Para quê? Aqui não preciso deles.» Óculos feitos metáfora na vida de Lamira, como se nada houvesse para enxergar no deserto. Confessa, entre risos, que «em Espanha não rezava. Ao princípio sim. Depois esquecia-me. Mas a minha mãe não sabe». Para os muçulmanos sarauís, o Estado é laico e a religião é opção de cada um. Esta posição de tolerância religiosa deixa-os mais longe dos restantes países árabes.


QUANDO VOLTOU da Andaluzia, Lamira chorava todos os dias. Depois, passou, conformou-se. Quer ser cabeleireira, mas o sonho será adiado. «As pessoas no acampamento não têm dinheiro para isso.» Desconsolo maior parece ser relativo aos rapazes «aqui são muito feios, ou bonitos mas com os dentes estragados», confessa, fazendo uma careta.
E namorar? «Não, não. Aqui, se a tua mãe sabe que gostas de um rapaz já não te deixa sair de casa. Não quero isso para mim», diz enquanto tira os óculos de sol imitação chinesa de marca de renome comprados em Argel. A vida de adolescente na normalidade possível da condição de refugiada.
A ida de Lamira para Espanha insere-se numa estratégia política da RASD na área da educação, que encontra eco na frase «ser culto é o melhor caminho para ser livre», repetida em várias placas por todas as escolas. Todos os anos 8400 crianças, entre os 8 e os 12 anos, saem dos acampamentos sarauís para passar um Verão mais ameno na Europa (Espanha e Itália, sobretudo) junto de famílias de acolhimento ou em acampamentos de férias, ao abrigo do programa Férias em Paz.
Algumas das crianças e jovens aproveitam para recorrer a tratamentos médicos impossíveis de realizar em Tinduf. O desenvolvimento deste programa veio ainda introduzir nos acampamentos um factor novo: a circulação de dinheiro. A nova realidade possibilita a existência de um pequeno comércio, feito de lojas de supermercado, vestuário e quinquilharia vária e cafés. Estabelecimentos frequentados não só por delegações da ajuda humanitária como pelos refugiados. Com o apoio internacional foram ainda construídos cibercafés onde jovens sarauís consultam e-mails e conversam em chats na internet.

PORTUGAL é visto pelos dirigentes sarauís como um país com potencial para acolhimento destas crianças, até pela proximidade geográfica. Apesar das tentativas levadas a cabo por organizações como o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), apenas um número reduzido de portugueses tem recebido crianças sarauís.
Alzira Mendes vive no Restelo, em Lisboa. Teve o primeiro contacto com os refugiados quando acompanhou o marido, médico, à Maratona do Sara, que acontece todos os anos em Fevereiro. A partir daí, começou a acolher crianças. Agora, de visita a Smara (o maior e mais densamente povoado dos acampamentos de Tinduf), fica em casa da família de Halifa, de 17 anos, que já recebeu em Portugal. «Gostei da piscina e da praia, dos parques e dos passeios», diz o rapaz.
O relato de Alzira é emocionado. «Ganhei mais com eles do que eles comigo, não tenho dúvidas.» Mas ser família de acolhimento é duro. «Quando vão para nossa casa têm saudades da mãe e choram nos primeiros dias. Depois percebem que têm muito para aproveitar naqueles dois meses. Vamos com eles a todos os sítios possíveis, queremos que vivam tudo, conheçam tudo. Quando partem, as saudades são muitas para nós e para eles também.» Depois, fica o vazio e «todos os dias sentar-me à mesa e pensar se eles aqui terão comida».

COMIDA NA MESA. É sempre a incógnita para os refugiados sarauís, actualmente vítimas de reduções da ajuda alimentar da qual dependem totalmente. Marrocos tem vindo a acusar a Polisário de revender a ajuda humanitária na Mauritânia e isso, segundo a RASD, tem consequências no envio de alimentos por parte das organizações. O alcaide de Dakhla conta que «há cada vez menos alimentos e problemas com o transporte.
Os atrasos chegam a ser de um mês e isso causa uma situação muito complicada para as famílias». Quando chega, nos dias 1 a 10 de cada mês, cada pessoa recebe alimentos básicos consoante a quantidade disponível: dois quilos de farinha, um quilo de arroz, massa, açúcar, lentilhas, uma lata de atum, azeite. O que for possível.
Como consequência de uma alimentação deficiente, muitos refugiados sofrem de má nutrição, anemias e desidratação. Nos hospitais, os médicos sarauís, maioritariamente formados em Cuba, contam com o apoio permanente das representações espanhola e grega da organização não governamental Médicos do Mundo.
Ibrahim, médico ginecologista, é o único especialista na região e vem ao hospital de Dakhla uma vez por mês. Entre um cigarro e outro traça o diagnóstico. «As mulheres aqui carregam muito peso, sacos de comida da assistência humanitária, água, isso provoca muitos abortos espontâneos, rupturas intra-uterinas. Só há pouco tempo começaram a substituir os trapos por pensos higiénicos durante a menstruação e estamos a conseguir evitar várias infecções.»

OS DOIS MÉDICOS residentes deste hospital têm 28 anos. Ali Maulud e Matala alternam a cada semana a posição de homem do leme do hospital e, nessas alturas, são responsáveis 24 horas por dia. Vêem-se a braços com muitos casos de hipertensão, diabetes, doenças respiratórias, bronquites e desidratação.
A má qualidade da água é responsável por um elevado número de doenças intestinais, gastrites, febres. Os banhos são esporádicos porque a água escasseia. Apesar de o sistema de saúde ter vindo a conseguir evitar a propagação de epidemias nos campos, as condições são deficientes.
A secção de maternidade de Dakhla tem uma incubadora e esterilizador alimentados por um sistema de aproveitamento solar ue só funciona quatro horas por dia. A energia fornecida não chega para mais.


O caminho de Dakhla ao acampamento «27 de Fevereiro» faz-se a bordo de um Land Cruiser por um caminho de pó e solavancos. Ao fim de 120 quilómetros passamos por Rabuni, o centro administrativo dos vários campos de refugiados, onde se concentra todo o aparelho deste «Estado» virtual.
Numa comparação ocidentalizada, Dakhla corresponderia ao campo, feito de casas dispersas e estradas vazias, e o «27 de Fevereiro» à cidade, com a azáfama de várias gerações de refugiados, estrangeiros de organizações de ajuda humanitária, e com a electricidade que permite ter luz ao clique de um interruptor.

NO RECINTO da escola, à volta da qual cresceu o acampamento, está montado um palco. Projectadas em dois improvisados panos brancos, passam imagens de uma marcha de protesto realizada, no dia anterior, junto ao muro de dois mil quilómetros construído por Marrocos. Há música, gritos e vivas a um Sara Livre.
Bader Habub, 28 anos, está presente e é o presidente de uma associação de voluntários (a Brigada Sumud) que actua nos campos de refugiados fazendo trabalho junto das famílias mais necessitadas, inválidos e mutilados de guerra. Como muitos jovens sarauís que frequentam cursos superiores no estrangeiro (sobretudo em Espanha, Argélia e Líbia), Bader estudou Geologia e Contabilidade em Cuba.
A postura perante o conflito, como a da maioria dos da sua geração, é radical. «Para ter a independência, para ter direito à terra, há que derramar sangue.» Ainda assim, Bader espera que «o referendo da ONU seja realizado com justiça» [ver caixa]. Activistas sarauís como Bader comparam a situação do Sara Ocidental a Timor Leste, ocupado pela Indonésia após a saída de Portugal, da mesma forma que Marrocos ocupou o Sara quando Espanha abandonou a região.
A revolta do jovem dirige-se para a escassez de perspectivas de uma vida melhor. «Aqui há muitos licenciados que não têm como utilizar os seus conhecimentos. E muito dinheiro das ajudas humanitárias tem origem no nosso mar, através das pescas, e na nossa terra, através dos fosfatos. Riquezas que Marrocos divide com os países ocidentais», indigna-se.
Bader olha para o futuro e garante que não quer ser contabilista em Espanha nem geólogo em França. «Não quero ser exilado aqui, na Argélia, e depois imigrante noutro sítio. Quero o meu país e ficar com o meu povo onde quer que ele esteja. Até ao fim.»
Ao fundo, como ecos no acampamento, risos universais e cantares em árabe soltam-se no escuro da noite abrigados por um céu inteiro de estrelas que só se deixam ver no deserto.
Versão online aqui.

2 comentários:

  1. Oi Joana
    Estou viajando para a Mauritania em Janeiro caminhar 200km pelo Saara. Depois de 14 dias estarei a deriva para saber qual direção seguirei depois da travessia. li esta publicação e gostaria de saber se é possivel u trabalho voluntário naquela região. Sou brasileira e falo 3 linguas, espanhol, inglês e português ( e um pouco de francês) Sou formada em Turismo no Brasil e gostaria de conhecer e ajudar a região.
    Muito obrigada

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  2. Olá Winni, peço desculpa mas só agora vi o seu comentário. Tem um e-mail para onde lhe possa enviar informação?

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