terça-feira, 19 de maio de 2009

Um salto à chuva


De volta à estrada. O mais longínquo dos acampamentos de Tinduf, e por isso o mais sofrido, aquele que alberga os maiores problemas e carências, ficou para trás na nossa jornada – no rigor e crueldade da geografia - e seguimos viagem. Com a promessa de fazer chegar pelo correio fotografias, notícias, saudades e de espalhar a palavra, contar a todos quanto pudermos a história e as estórias que ali conhecemos.

Voltámos aos Land Cruiser azuis que vão desbravando terra, cortando o ar, levantando pó, sem rumo definido no chão, tentando seguir as pistas anteriormente desenhadas pelos pneus de outros jipes. A caminho do vazio. Sentada no banco da frente vou tentando, aos solavancos, físicos e metafóricos, relembrar os últimos dias, apontando no caderninho preto recordações, na tentativa vã de não esquecer nada para melhor contar tudo. Entre memórias, passamos por um posto militar “importante”, dizem-me, em termos estratégicos devido à proximidade com a Mauritânia. Logo a seguir, a aldeola de Gara Djebillet onde vivem os familiares dos militares.

Iremos parar um pouco depois, a 70 quilómetros de Tinduf, no meio do nada, para visitarmos o internato do 12 de Outubro. A escola que abriga 650 alunos, entre os 12 e 18 anos, recebeu o nome da data em que se festeja a Unidade Nacional dos Saharaui. Como nos explica o director, este internato é uma etapa intermédia para todos aqueles que pretendem continuar a estudar. Após os quatro anos ali vividos, os jovens podem seguir para um dos vários países com os quais existem protocolos de cooperação para estudos universitários. Líbia, Síria, Cuba, Argélia ou Espanha, podem vir a ser o seu próximo destino. Visitamos as salas de aulas, com paredes bem providas de pedaços da história de um povo, contada através de fotografias a preto e branco de heróis nacionais e cópias de mapas; no chão maquetes da escola, minuciosas, pormenorizadas, construídas a papel, areia e pedra; no laboratório de química, tubos de ensaio, pipetas, varetas, espátulas e demais equipamento que permite descortinar os mistérios da natureza; na cantina gigantesca, mesas corridas, intermináveis, onde são colocados tabuleiros e servidas as refeições; nas dezenas de dormitórios, centenas de camas abrigam os 650 jovens que trocam a vida junto dos pais pela continuação dos estudos e personificam a máxima “Ser culto para ser livre”, presente em todo o lado.

Durante a visita, o calor sempre abrasador que nos esmaga, queima e amolece, é interrompido por um vento forte e barulhento que se levanta sem avisar. De repente, saímos para a rua e deparamo-nos com o cenário que a fotografia ali em cima mostra. Junto a um muro, uma mão cheia de crianças ensaiava saltos e piruetas festejando uma chuva miudinha e refrescante que caía inesperadamente. Alegria em estado puro na simplicidade de água no deserto.

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