segunda-feira, 4 de maio de 2009

O "direito a viajar" das crianças saharauis – Ir ao Mundo e voltar



Olhar o mar pela primeira vez, descobrir o azul reflectido numa imensidão de água, voar a bordo de um avião cheio de crianças como eles, atravessar o continente africano para o europeu, descobrir montanhas e escarpas, ver ao vivo cores iguais às desenhadas com lápis trazidos de longe, andar de carro em cidades grandes, encadeantes de luzes e néons, ruidosas, barulhentas e confusas, mas cheias de movimento e vida, pisar a areia molhada da praia e construir um castelo igual aquele que acabaram de visitar, ir a museus e ver marionetas, dinossauros, espadas e tambores, correr em parques naturais e jardins, andar de comboio e de barco, descobrir a água corrente, saber o que é abrir uma torneira e a água não parar de jorrar, tomar um banho diário, descobrir esse objecto chamado de sanita, escovar os dentes diariamente, comprar roupa e sapatos, aprender a comunicar num novo e estranho idioma, assistir a desenhos animados numa sala de cinema, ter comida na mesa com fartura e refeições tomadas várias vezes ao dia, pensar que aquilo que sobra faria falta na casa lá longe, usar um garfo e uma faca para levar a comida à boca, deitar numa cama para dormir e chorar com saudades da mãe que ficou longe e que chorará também ela na sua tenda de Tinduf, regressar depois ao acampamento e chorar com saudades do que se acabou de conhecer.

Ir ao Mundo e voltar. É isto que fazem, todos os Verões, durante os meses de Julho e Agosto, cerca de 8.400 crianças saharauis dos 8 aos 12 anos. Com o aproximar do tempo mais quente e seco inaugura-se o programa governamental saharaui "Férias em Paz"/ "Vacaciones en Paz". Vários voos charter partem de Tinduf completos de crianças a caminho de umas férias na Europa. Um verdadeiro "direito a viajar" consagrado pelos responsáveis saharauis. Os seleccionados (os critérios são a idade e o sucesso escolar, - a quem reprova um ano escolar não é permitido repetir o programa) deixam as temperaturas impossíveis do Verão nos campos de refugiados na Argélia e vão viver dois meses em Espanha, França, Itália ou outro destino, junto de famílias estrangeiras de acolhimento e/ou em colónias de férias. Os custos são totalmente suportados pelas famílias de acolhimento, em conjunto com várias associações europeias de apoio à causa saharaui.

A razão de ser deste programa foi-nos explicada pelo secretário da Juventude Saharaui. Segundo Mouloud Fadel, este programa é uma forma de "as crianças conhecerem uma sociedade diferente, saberem que é possível uma vida diferente daquela vivida nos acampamentos e que devem lutar por isso". Para além de permitir às crianças a visão deste mundo novo fora dos acampamentos, o programa "Férias em Paz"/ "Vacaciones en Paz" tem objectivos políticos que os responsáveis não escondem. "Estas crianças são embaixadores da Paz no sentido em que vão dar a conhecer às famílias e respectivos países europeus a realidade em que vive o povo saraui". Uma forma de espalhar a causa através das crianças. Também a questão financeira está bem presente. A criação de laços afectivos entre as crianças saharauis e as famílias europeias permite "uma certa auto-suficiência das famílias nos acampamentos e independência da ajuda humanitária organizada, isto porque, as famílias passam a enviar dinheiro, bens e a visitar as crianças nos acampamentos". Desta forma, o chamado "direito a viajar" das crianças é uma forma de dotar o povo saharaui de alguns recursos e uma oportunidade de ajudar à resistência através da solidariedade directa, mais independente de conjunturas económicas e interesses políticos.

O programa visa ainda possibilitar a realização a algumas crianças de cirurgias e tratamentos médicos que não podem ser realizados em Tinduf, por falta de condições. Foi o caso de Abel, lembram-se?
Portugal é visto, até pela proximidade geográfica, como um país com potencial para acolhimento destas crianças, tanto para realização de cirurgias como para as receber num período de férias. No entanto, e até agora, apenas um número reduzido de portugueses tem recebido crianças saharauis. Existem excepções, claro. Falaremos disso mais tarde.

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