quarta-feira, 15 de abril de 2009

Abel

O primeiro dia desta jornada começa sob os auspícios do betão e aço de Calatrava com o encontro na Gare do Oriente e início da viagem às onze da manhã. Segue-se cerca de 220 quilómetros com o autocarro a rolar, adeus castelo de Palmela e saída para Setúbal, olá paisagem alentejana, um bem haja cegonhas nos postes de alta tensão da A6, a última paragem para um “café a sério” numa estação de serviço lusa, a chegada ao aeroporto de Badajoz três horas antes do voo da Air Algerie.

No aeroporto minúsculo amontoam-se centenas de caixas, caixotes, malas de viagem, mochilas a rebentar pelas costuras. O peso da solidariedade feito de alimentos, medicamentos, roupa e brinquedos, desfez em fanicos os nervos do pessoal do check in, mas coube todo no avião. Aproveitando a semana santa, associações humanitárias espanholas vão em força para Tinduf e levam tudo quanto podem. Muitas destas pessoas acolhem crianças sarauis nas férias do Verão e agora vão fazer-lhes uma visita. No meio da confusão espanhola e da impaciência tuga da espera, descubro Abel.

Através do vidro que separa a sala de embarque do bar do aeroporto duas crianças, uma de cada lado, simulam beijos e trocam ternuras. O quadro é irresistível e aproximo-me. Abel é um menino saraui de 14 anos, vestido com calças de ganga, pólo e ténis Puma. Nasceu nos campos de refugiados de Tinduf com um problema renal e teve de ir para Espanha para lhe ser retirado um rim. Desde há nove anos que vive em Espanha com a mãe, pai, um irmão e uma irmã adoptivos e vai agora, mais uma vez, visitar a família de sangue a Tinduf. Enquanto Abel e a irmã de sete anos fintam as saudades que irão sentir na próxima semana, Maribel, a mãe espanhola conta que a história da família não tem sido fácil. Alguns desentendimentos com a família de origem só solucionados com “diligências efectuadas ao mais alto nível com os representantes sarauis em Madrid” e muitos milhares de euros gastos, incluindo bilhetes de avião que eram enviados e nunca utilizados.

A revolta pelas condições em que vive a família de Abel também é muita “a Argélia mete-os para lá num pedaço de território, num deserto que não quer para nada…E o cheiro…Aquele cheiro dos acampamentos não é identificável com mais nada. Verás”. Mas sorri quando mostra as fotografias de Abel no telemóvel e diz que todos lhe chamam Ronaldinho, por causa do cabelo e do jeito para a bola do miúdo. Longe das complicações dos adultos, já no avião que parte ao final da tarde, Abel diz-me que vai conhecer uma irmã que, entretanto, nasceu enquanto ele estava em Espanha. E está feliz. “Vou ver alguns amigos, não tantos como os que tenho em Espanha. Gosto de ir, mas por pouco tempo, e depois voltar”. Até Domingo, Abel.

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