Matala, estatura média, calças de ganga, t-shirt e boné azul, parece um puto. Está de folga. Esta semana o turno no hospital de Dahkla pertence ao colega Ali Maulud. Têm os dois 28 anos, alguns dos quais passados em Cuba a estudar Medicina. Viram o azul turquesa das Caraíbas e outras cores que não conheciam antes, ouviram os ritmos de Compay, Milanes, Omara e Orishas, passearam pelas ruas de arquitectura colonial onde desfilam corpos morenos "merengados" e parcamente vestidos, sentiram a vibração da ilha, conviveram com a cerveja e álcool interdito aos muçulmanos, cheiraram a fruta fresca nos mercados. Cursos concluídos, doutores feitos, deixaram a paleta de cores berrantes da ilha caribenha e voltaram para a monocromia de Tinduf.
Assumem agora a função de médicos residentes no hospital daquela província, contando com o apoio permanente das representações espanhola e grega da ONG Médicos do Mundo. Os dois alternam a cada semana e, nessas alturas, são responsáveis 24 horas por dia. Uma semana inteira a atender sozinhos todos os doentes que chegam, numa população de 20.000 pessoas. 24 horas por dia. “Há alturas em que é calmo, mas outras há em que chegam quarenta pacientes num dia”, dizem. Matala e Ali Maulud têm como inimigos a alimentação deficiente, e consequentes má nutrição, anemias e desidratação. Combatem um elevado número de doenças intestinais, gastrites e febres, devido à má qualidade da água.
Para além das crianças e dos mais velhos, também as mulheres são muito afectadas. Ibrahim é o único especialista de ginecologia na região e vem ao hospital de Dakhla uma vez por mês. Como consequência do trabalho duro e do peso carregado (sacos de comida da assistência humanitária e água), as mulheres sofrem muitos abortos espontâneos e rupturas intra-uterinas. O uso de pensos higiénicos, por contraposição aos antigos trapos, tem sido uma conquista progressiva para evitar infecções.
Matala mostra-nos todos os cantos do hospital, as alas das várias especialidades, a enfermaria, a secção de maternidade. Nesta última, apesar de “até haver uma incubadora e esterilizador, só funcionam quatro horas por dia”. Não há electricidade e o sistema de aproveitamento solar não chega para mais. Quando surge algum problema maior, duas ambulâncias estão a postos para levar os pacientes até à unidade hospitalar de Rabuni, num percurso indescritível de bem mais de uma hora.
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