segunda-feira, 20 de abril de 2009

Girls just wanna have fun


Uma adolescente é sempre uma adolescente a qualquer latitude ou circunstância. Este foi um dos muitos ensinamentos que vieram com Dakhla. Com o aproximar do final do dia preparávamo-nos para assistir ao pôr-do-sol nas dunas. E, pela noite fora, havia uma festa para a delegação portuguesa. Connosco no jipe, seguia Lamira, 18 anos, castelhano perfeito aprendido durante três anos a viver em Sevilha, nossa companheira durante a estadia em Dakhla. No caminho para as dunas, Lamira troca umas palavras com o condutor, marcha invertida, paragem em casa (a casa que naqueles dias foi a “nossa” casa), Lamira desce do carro. Ninguém percebeu porquê e todos se impacientavam com o Sol que insistia em fazer o seu périplo até ao horizonte. “Será que vai avisar os pais?”, “Será que fica em casa?”, “O que será que aconteceu?”. Lamira volta a entrar no jipe, sorridente e triunfante. Foi mudar de roupa. A melfha (lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauis, a partir do momento em que têm a primeira menstruação) que veste por cima das calças de ganga e dos ténis, já não é azul turquesa mas em tons de castanho. Espanto e risos incrédulos na comitiva. O jipe segue rumo às dunas a todo o gás. Mas já não fomos a tempo. Sobrou apenas uma nesga de Sol a fugir-nos duna abaixo. Houve quem ficasse meio aborrecido, houve quem achasse piada ao inusitado da coisa. Pôr-do-sol haverá todos os dias, festas nas dunas de Dakhla nem por isso, terá pensado Lamira que, indiferente à desilusão portuguesa, esteve radiosa até ao fim, por certo muito mais confiante no seu traje de festa. Uma miúda de 18 anos será sempre uma miúda de 18 anos, pensei, solidária na vaidade feminina. A festa foi bonita, mas muito melhor foi o conforto de sentir a normalidade possível da vida no campo de refugiados de Dakhla, pela melfha de Lamira.

1 comentário:

  1. Muito bonito este cenário, como todos os outros que vivemos.
    Parabéns e continuem neste ritmo. Brevemente darei o meu contributo. Posso?
    Beijinhos
    Antónia

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