segunda-feira, 27 de abril de 2009

Duas Dakhlas, um destino




Dakhla é uma cidade, aconchegada numa península, na costa atlântica do Sara Ocidental. Tem prédios, estradas e rotundas, semáforos. Tem praias, surfistas, praticantes de outros desportos naúticos, como o kitesurfing, em busca do vento e das ondas. Tem festivais de música e turistas...

Claro que não foi esta a Dakhla onde estivemos. A “nossa” Dakhla é outra. Os campos de refugiados de Tinduf estão divididos em vilayas e dairas (correspondentes aos nossos distritos e freguesias) baptizadas com os nomes de várias cidades existentes no Sara Ocidental. Uma forma de não esquecer o passado e manter vivo o sentimento de casa. A vilaya de Dakhla é o acampamento mais longínquo de Tinduf, a sudoeste do aeroporto. É também aquele onde se registam as maiores carências ao nível da saúde, educação, transportes e comunicações. E tem o nome da cidade banhada pelo mar que o povo saraui reclama como sua.

A vida no acampamento de Dakhla é dura. A paisagem é desértica, pedregosa e infértil, com barracas de tijolo cru e tendas de lona, as chamadas jaimas, despojadas de tudo. Dentro dessas “casas”, várias janelas permitem que o ar circule, tapetes coloridos cobrem o chão onde se dorme, uma mesa no meio serve de apoio às refeições, o telhado é de zinco. Não há água corrente, a luz é esporádica e não é para todos, vem ao ritmo de baterias carregadas com energia providenciada por painéis fotovoltaicos. Não se vislumbra vegetação. A água é escassa, de má qualidade e extraída através de furos.

Os ventos fortes, baptizados de sirocco, soprados do deserto em direcção ao Norte de África, causam tempestades de quando em vez. Outras vezes, são as raras chuvas torrenciais que provocam desabamentos. Uma das últimas destruiu parte de uma escola frequentada por 630 crianças e jovens, que o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) vai ajudar a reconstruir.

No Verão as temperaturas atingem o calor sufocante dos 50 graus, nas noites de Inverno podem ir aos negativos. Num lugar que os dicionários chamariam de “inóspito”, os sarauis com a ajuda humanitária internacional têm construído algumas infra-estruturas como escolas, hospitais, associações recreativas, pequeno comércio. Na tentativa de minorizar os efeitos das condições em que se encontram e possibilitar a "vida".

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