
Depois de uma hora e meia a voar desde Badajoz, segue-se uma paragem em Argel para reabastecer e trocar de tripulação. Não saímos do avião mas ninguém se importa, o cansaço começa a apertar e já é de noite. Despeço-me do meu companheiro de lugar, argelino e mecânico do avião, que não segue para Tinduf - “nunca lá fui” - e chega agora a casa. “Não se esqueça. Diga aos seus amigos que indústria não é civilização”, diz-me ele em inglês.
O remate de uma conversa de uma hora sobre o mundo islâmico e o ocidente. Ele, que viveu em Seattle e em Lyon, olha com tristeza “para a ideia que a Europa e Estados Unidos têm do mundo árabe”. “Uma civilização é aferida por aquilo que um povo é capaz de dar aos outros. Como é que os Estados Unidos são uma civilização? O que dão eles ao resto do mundo? Armamento? Guerra? Destruição? Isso não é civilização. Indústria não é civilização. Não se esqueça”. Não me esqueço, prometo, nem me esqueço do conforto que é - face ao medo crescente que tenho em andar pelos ares, proporcional às milhas acumuladas ,- viajar ao lado de um mecânico de aviões. Segue-se o suplício e são mais duas horas e meia até Tinduf.
Com os pés, finalmente, em terra firme sente-se o calor de um dia de Verão, quando já passa da meia-noite. Á nossa espera os jipes e respectivos condutores (repletos de paciência e boa disposição), que nos irão acompanhar durante toda a viagem. De Tinduf vamos ainda ter de ir para Dakhla, o mais longínquo dos acampamentos, onde iremos ficar três dias. Depois de uns quilómetros tranquilos pelo asfalto os jipes rodam o volante para a esquerda, saem da estrada e “eh lá!”, iniciamos outro caminho. Um momento, aquilo não era um caminho. Aquilo era um martírio, de pó, saltos, cabeças a bater no tecto, pés e pernas dormentes pelo peso das mochilas, malas e malotes que havia por todo o lado e a prole de Júlio Iglésias a guinchar no rádio (não faz sentido nenhum, bem sabemos). Não sei quanto tempo passou. Pode ter sido só uma hora ou duas, mas pareceu uma eternidade. “Já só falta meia hora”, frase ouvida dezenas de vezes, “Já só faltam cinco minutos”, frase ouvida outras tantas. Houve quem quisesse desistir “se já só faltam cinco minutos, vou a pé”. Com (muito) custo e algumas pausas para ver o céu do deserto, aquele céu que só existe no deserto, lá chegámos mais ou menos inteiros.
De madrugada, à nossa espera algumas pessoas das famílias que nos iam acolher. Na penumbra da noite, meio cegos pela luz dos faróis dos carros, grupos dividiram-se num ápice e, o nosso, seguiu uma senhora que não dizia palavra. A chegada à salinha com apenas uns tapetes no chão foi a visão do paraíso e soube logo a casa. Saco-cama estendido, amanhã há mais.
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