quinta-feira, 30 de abril de 2009

Notícias na rede: SADC lamenta situação política prevalecente no Sahara Ocidental

O embaixador sul-africano e presidente da missão permanente da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) na ONU, Baso Sangqu, lamenta em nome dos 14 Estados membros a situação política prevalecente por mais de três décadas no Sahara Ocidental, sem contudo existir qualquer solução.

Num comunicado enviado quarta-feira à Angop [Agência de notícias angolana], a SADC reitera que "para o povo do Sahara Ocidental, o conflito dominante naquele país é uma luta pela auto-determinação e que está baseada nos princípios da descolonização, da promoção dos direitos humanos, da legalidade internacional, assim como da estabilidade e da segurança do continente Africano". "É uma luta na qual o povo da nossa sub-região africana está completamente engajada"-sustentou.

Assim, os Estados membros apelam à Frente Polisário, que representa o povo do Sahara Ocidental, e ao Reino dos Marrocos no sentido de participarem nas negociações directas durante o processo Manhasset baseado no plano de ambos apresentado ao Secretário-Geral. O texto sublinha que a SADC deseja que as duas partes manifestem nas conversações uma vontade negocial sem pré-condições e de boa fé, em conformidade com a resolução 1754 (2006) do Conselho da Segurança (CS) da ONU.

"A República Árabe Saharaui Democrática é membro fundador da União Africana (UA) e foi da Organização da Unidade Africana (OUA). Ao mesmo tempo, o reino dos Marrocos é igualmente um país africano amigo", recordou Baso Sangqu no comunicado.
O texto acrescenta que "a SADC continua esperançada que as duas nações africanas possam encontrar um meio capaz de resolver o seu diferendo que permanece como grande desafio para o nosso continente". "O objectivo é tentar alcançar uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável", rematou.

Os Estados Membros da SADC apelaram ao Concelho da Segurança a agir decisivamente e ajudar as partes na resolução do seu conflito na base dos princípios legais estabelecidos sobre a auto-determinação. O diplomata sul-africano disse, por outro lado, que a organização da África Austral manifesta a sua preocupação perante a incessante exploração de recursos naturais do Sahara Ocidental. "Essas actividades violam os princípios legais internacionais aplicáveis sobre os territórios não-autónomos", prosseguiu. "Para tal, é importante recordar que o Sahara Ocidental permanece como a última colónia do continente africano e faz parte da lista das Nações Unidas de Território Não-Autónomos desde 1963, altura em que se encontrava sob a colonização espanhola", indica a nota.

O embaixador Baso Sagqu aproveitou a oportunidade para felicitar o novo enviado pessoal do secretário-geral da ONU, Christopher Ross, e encorajou-o no sentido de empreender todos os esforços necessários para garantir uma solução justa do conflito, no âmbito das resoluções da ONU sobre a questão da descolonização.

Retirado de www.portalangop.co.ao

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Shukran شكراًَ


Na foto, a prova de como a necessidade aguça o engenho: o pátio interior do hospital de Dakhla foi aproveitado para uma plantação de algodão, material que, como se sabe, dá muito jeito num hospital.
Faltou dizer, no post anterior, que os medicamentos que recolhemos em Portugal, junto da família e amigos que tão prontamente quiseram ajudar, ficaram aqui com Matala e Ali Maulud. O nosso shukran a todos.

Médicos deste Mundo






Matala, estatura média, calças de ganga, t-shirt e boné azul, parece um puto. Está de folga. Esta semana o turno no hospital de Dahkla pertence ao colega Ali Maulud. Têm os dois 28 anos, alguns dos quais passados em Cuba a estudar Medicina. Viram o azul turquesa das Caraíbas e outras cores que não conheciam antes, ouviram os ritmos de Compay, Milanes, Omara e Orishas, passearam pelas ruas de arquitectura colonial onde desfilam corpos morenos "merengados" e parcamente vestidos, sentiram a vibração da ilha, conviveram com a cerveja e álcool interdito aos muçulmanos, cheiraram a fruta fresca nos mercados. Cursos concluídos, doutores feitos, deixaram a paleta de cores berrantes da ilha caribenha e voltaram para a monocromia de Tinduf.
Assumem agora a função de médicos residentes no hospital daquela província, contando com o apoio permanente das representações espanhola e grega da ONG Médicos do Mundo. Os dois alternam a cada semana e, nessas alturas, são responsáveis 24 horas por dia. Uma semana inteira a atender sozinhos todos os doentes que chegam, numa população de 20.000 pessoas. 24 horas por dia. “Há alturas em que é calmo, mas outras há em que chegam quarenta pacientes num dia”, dizem. Matala e Ali Maulud têm como inimigos a alimentação deficiente, e consequentes má nutrição, anemias e desidratação. Combatem um elevado número de doenças intestinais, gastrites e febres, devido à má qualidade da água.
Para além das crianças e dos mais velhos, também as mulheres são muito afectadas. Ibrahim é o único especialista de ginecologia na região e vem ao hospital de Dakhla uma vez por mês. Como consequência do trabalho duro e do peso carregado (sacos de comida da assistência humanitária e água), as mulheres sofrem muitos abortos espontâneos e rupturas intra-uterinas. O uso de pensos higiénicos, por contraposição aos antigos trapos, tem sido uma conquista progressiva para evitar infecções.
Matala mostra-nos todos os cantos do hospital, as alas das várias especialidades, a enfermaria, a secção de maternidade. Nesta última, apesar de “até haver uma incubadora e esterilizador, só funcionam quatro horas por dia”. Não há electricidade e o sistema de aproveitamento solar não chega para mais. Quando surge algum problema maior, duas ambulâncias estão a postos para levar os pacientes até à unidade hospitalar de Rabuni, num percurso indescritível de bem mais de uma hora.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Notícias na rede: WSRW solicita ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que exija o fim da pilhagem


A ONG internacional Western Sahara Resource Watch enviou no passado dia 21 de Abril, uma carta a todos os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, solicitando o fim da pilhagem do Sara Ocidental ocupado.

A Western Sahara Resource Watch, cujo objectivo é assegurar a aplicação correcta do direito internacional ao Sahara Ocidental, pretende transmitir o seguinte:

1. Órgãos relevantes das Nações Unidas têm demonstrado preocupação com a questão do Sahara Ocidental há várias décadas. A Assembleia Geral tem mantido, consistentemente desde 1966 (Resolução 2229), que a população originária do Sahara Ocidental tem o direito à auto-determinação. O Conselho de Segurança, desde 1988 (Resolução 621) e, para salvaguardar a paz e segurança no Sahara Ocidental, tem insistido na necessidade de levar a cabo um referendo para a auto-determinação do povo saharaui. O Tribunal Internacional de Justiça afirmou no seu Parecer Consultivo sobre o Sahara Ocidental, datado de 16 de Outubro de 1975, que o direito à auto-determinação da população originária do Sahara não está, de modo algum, em dúvida.

2. A Western Sahara Resource Watch chama a atenção dos membros do Conselho de Segurança, para o facto da exploração dos recursos naturais do Sahara Ocidental estar a ser realizada em desrespeito de importantes princípios legais internacionais, incluindo aqueles que estão reflectidos nas resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas (incluindo as resoluções 62/120 e 63/111) e Artigo 1 do Pacto Internacional relativo aos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, ambos ratificados pelo Reino de Marrocos. Tal como foi estabelecido em 2002, de forma bem clara, pela ONU: “…se se verificar uma posterior actividade de exploração, sem ter em conta a vontade e interesse da população do Sahara Ocidental, aquela estará em violação dos princípios do direito internacional aplicáveis à exploração de recursos minerais em territórios não autónomos”.

3. A exploração ilegal dos recursos naturais do Sahara Ocidental tem, como um dos objectivos, a consolidação da ocupação militar e colonização ilegal do Sara Ocidental pelo Reino de Marrocos. Os proveitos dessas actividades são utilizados não apenas para financiar uma presença militar ilegal, mas para Marrocos trazer novos imigrantes para o território, colocando-os ao serviço desta exploração e, deste modo, produzir conflitos sociais e económicos que estão a colocar em risco a paz e segurança do território.
Os incidentes de 21 Julho de 2008 na região de Dakhla (antigamente chamada de Villa Cisneros), onde colonos marroquinos atacaram os poucos saharauis com emprego na indústria pesqueira, representam um motivo de alarme que deve ser tido em consideração.

Pelas razões acima mencionadas, a Western Sahara Resource Watch solicita que o Conselho de Segurança, na sua resolução da próxima semana, decrete uma paragem imediata das actividades de exploração dos recursos naturais, perpetrada pelo Reino de Marrocos e por outros interesses estrangeiros em desrespeito das normas de direito internacional. (Tradução nossa)

Para mais informações contactar:
Cate Lewis, International Coordinator, Western Sahara Resource Watch
lewis.cate@gmail.com
+61 407 288 358
www.wsrw.org
WSRW no Facebook

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Duas Dakhlas, um destino




Dakhla é uma cidade, aconchegada numa península, na costa atlântica do Sara Ocidental. Tem prédios, estradas e rotundas, semáforos. Tem praias, surfistas, praticantes de outros desportos naúticos, como o kitesurfing, em busca do vento e das ondas. Tem festivais de música e turistas...

Claro que não foi esta a Dakhla onde estivemos. A “nossa” Dakhla é outra. Os campos de refugiados de Tinduf estão divididos em vilayas e dairas (correspondentes aos nossos distritos e freguesias) baptizadas com os nomes de várias cidades existentes no Sara Ocidental. Uma forma de não esquecer o passado e manter vivo o sentimento de casa. A vilaya de Dakhla é o acampamento mais longínquo de Tinduf, a sudoeste do aeroporto. É também aquele onde se registam as maiores carências ao nível da saúde, educação, transportes e comunicações. E tem o nome da cidade banhada pelo mar que o povo saraui reclama como sua.

A vida no acampamento de Dakhla é dura. A paisagem é desértica, pedregosa e infértil, com barracas de tijolo cru e tendas de lona, as chamadas jaimas, despojadas de tudo. Dentro dessas “casas”, várias janelas permitem que o ar circule, tapetes coloridos cobrem o chão onde se dorme, uma mesa no meio serve de apoio às refeições, o telhado é de zinco. Não há água corrente, a luz é esporádica e não é para todos, vem ao ritmo de baterias carregadas com energia providenciada por painéis fotovoltaicos. Não se vislumbra vegetação. A água é escassa, de má qualidade e extraída através de furos.

Os ventos fortes, baptizados de sirocco, soprados do deserto em direcção ao Norte de África, causam tempestades de quando em vez. Outras vezes, são as raras chuvas torrenciais que provocam desabamentos. Uma das últimas destruiu parte de uma escola frequentada por 630 crianças e jovens, que o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) vai ajudar a reconstruir.

No Verão as temperaturas atingem o calor sufocante dos 50 graus, nas noites de Inverno podem ir aos negativos. Num lugar que os dicionários chamariam de “inóspito”, os sarauis com a ajuda humanitária internacional têm construído algumas infra-estruturas como escolas, hospitais, associações recreativas, pequeno comércio. Na tentativa de minorizar os efeitos das condições em que se encontram e possibilitar a "vida".

domingo, 26 de abril de 2009

To be Saharawi, o filme




O filme To be Saharawi, a luta de um povo pelo direito a existir será a concretização de um sonho que um conjunto de pessoas se atreveu a sonhar. Joaquim de Almeida, actor internacional, Rui Reininho, músico, João Vilhena, fotógrafo, José Manuel de S. Lopes, produtor e realizador, Eberhard Schedl, fotógrafo e camera, Gerardo Fernandes, produtor executivo, Gita Cerveira, director de som, Clara Ferrão, directora de casting, entre outros, partilham esse sonho comum e estão juntos no objectivo de produzir o filme.

As intenções são claras. “Perante uma situação, a do Sahara Ocidental e do povo saharaui, que se arrasta há mais de três décadas, onde todos os direitos pelos quais a sociedade ocidental se diz defensora são ignorados e subvertidos, graças à cobiça duns e à hipocrisia doutros, um grupo de pessoas, ligadas ao cinema, à música e ao jornalismo, decidiu empreender a produção dum filme que mostre ao mundo o que é ser saharaui, o que é ser colonizado, por outro povo que há bem pouco ainda era colónia, o que é ser refugiado e ver os seus filhos nasceram com a condição de refugiados”.

Segundo nos disse o realizador José Manuel de S. Lopes “tem sido duma extrema dificuldade a concretização do projecto, devido ao desinteresse e desconhecimento geral do assunto. E como é um projecto que envolve custos maior a dificuldade”. Ainda assim, está previsto o início da rodagem para este ano, no mês de Setembro. Esperamos que To be Saharawi passe nos ecrãs de todo o mundo brevemente.

Mais informação sobre o filme aqui

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Girls just wanna have fun


Uma adolescente é sempre uma adolescente a qualquer latitude ou circunstância. Este foi um dos muitos ensinamentos que vieram com Dakhla. Com o aproximar do final do dia preparávamo-nos para assistir ao pôr-do-sol nas dunas. E, pela noite fora, havia uma festa para a delegação portuguesa. Connosco no jipe, seguia Lamira, 18 anos, castelhano perfeito aprendido durante três anos a viver em Sevilha, nossa companheira durante a estadia em Dakhla. No caminho para as dunas, Lamira troca umas palavras com o condutor, marcha invertida, paragem em casa (a casa que naqueles dias foi a “nossa” casa), Lamira desce do carro. Ninguém percebeu porquê e todos se impacientavam com o Sol que insistia em fazer o seu périplo até ao horizonte. “Será que vai avisar os pais?”, “Será que fica em casa?”, “O que será que aconteceu?”. Lamira volta a entrar no jipe, sorridente e triunfante. Foi mudar de roupa. A melfha (lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauis, a partir do momento em que têm a primeira menstruação) que veste por cima das calças de ganga e dos ténis, já não é azul turquesa mas em tons de castanho. Espanto e risos incrédulos na comitiva. O jipe segue rumo às dunas a todo o gás. Mas já não fomos a tempo. Sobrou apenas uma nesga de Sol a fugir-nos duna abaixo. Houve quem ficasse meio aborrecido, houve quem achasse piada ao inusitado da coisa. Pôr-do-sol haverá todos os dias, festas nas dunas de Dakhla nem por isso, terá pensado Lamira que, indiferente à desilusão portuguesa, esteve radiosa até ao fim, por certo muito mais confiante no seu traje de festa. Uma miúda de 18 anos será sempre uma miúda de 18 anos, pensei, solidária na vaidade feminina. A festa foi bonita, mas muito melhor foi o conforto de sentir a normalidade possível da vida no campo de refugiados de Dakhla, pela melfha de Lamira.

Acordar no deserto




Primeiro são as cores que vêm com o nascer do Sol, o sabor do chá que percorre lentamente o seu caminho desde o bule até cair no copo espalhando aroma a ervas e açúcar, em seguida o silêncio interrompido pela banda sonora que surge através dos sons dos animais que acordam também, a brisa fresca que nos toca no rosto e sabe melhor porque é rara, sabemos que já não irá durar mais de meia hora. No fim, a sensação de espaço que nos inunda. Espaço sem tempo. Acordar no deserto são os cinco sentidos à solta num festival que é só deles. É acordar mais perto de nós próprios. É acordar com a consciência do nada e do tudo que somos. É acordar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

De Lisboa a Tinduf é um dia de distância


Depois de uma hora e meia a voar desde Badajoz, segue-se uma paragem em Argel para reabastecer e trocar de tripulação. Não saímos do avião mas ninguém se importa, o cansaço começa a apertar e já é de noite. Despeço-me do meu companheiro de lugar, argelino e mecânico do avião, que não segue para Tinduf - “nunca lá fui” - e chega agora a casa. “Não se esqueça. Diga aos seus amigos que indústria não é civilização”, diz-me ele em inglês.

O remate de uma conversa de uma hora sobre o mundo islâmico e o ocidente. Ele, que viveu em Seattle e em Lyon, olha com tristeza “para a ideia que a Europa e Estados Unidos têm do mundo árabe”. “Uma civilização é aferida por aquilo que um povo é capaz de dar aos outros. Como é que os Estados Unidos são uma civilização? O que dão eles ao resto do mundo? Armamento? Guerra? Destruição? Isso não é civilização. Indústria não é civilização. Não se esqueça”. Não me esqueço, prometo, nem me esqueço do conforto que é - face ao medo crescente que tenho em andar pelos ares, proporcional às milhas acumuladas ,- viajar ao lado de um mecânico de aviões. Segue-se o suplício e são mais duas horas e meia até Tinduf.

Com os pés, finalmente, em terra firme sente-se o calor de um dia de Verão, quando já passa da meia-noite. Á nossa espera os jipes e respectivos condutores (repletos de paciência e boa disposição), que nos irão acompanhar durante toda a viagem. De Tinduf vamos ainda ter de ir para Dakhla, o mais longínquo dos acampamentos, onde iremos ficar três dias. Depois de uns quilómetros tranquilos pelo asfalto os jipes rodam o volante para a esquerda, saem da estrada e “eh lá!”, iniciamos outro caminho. Um momento, aquilo não era um caminho. Aquilo era um martírio, de pó, saltos, cabeças a bater no tecto, pés e pernas dormentes pelo peso das mochilas, malas e malotes que havia por todo o lado e a prole de Júlio Iglésias a guinchar no rádio (não faz sentido nenhum, bem sabemos). Não sei quanto tempo passou. Pode ter sido só uma hora ou duas, mas pareceu uma eternidade. “Já só falta meia hora”, frase ouvida dezenas de vezes, “Já só faltam cinco minutos”, frase ouvida outras tantas. Houve quem quisesse desistir “se já só faltam cinco minutos, vou a pé”. Com (muito) custo e algumas pausas para ver o céu do deserto, aquele céu que só existe no deserto, lá chegámos mais ou menos inteiros.

De madrugada, à nossa espera algumas pessoas das famílias que nos iam acolher. Na penumbra da noite, meio cegos pela luz dos faróis dos carros, grupos dividiram-se num ápice e, o nosso, seguiu uma senhora que não dizia palavra. A chegada à salinha com apenas uns tapetes no chão foi a visão do paraíso e soube logo a casa. Saco-cama estendido, amanhã há mais.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Abel

O primeiro dia desta jornada começa sob os auspícios do betão e aço de Calatrava com o encontro na Gare do Oriente e início da viagem às onze da manhã. Segue-se cerca de 220 quilómetros com o autocarro a rolar, adeus castelo de Palmela e saída para Setúbal, olá paisagem alentejana, um bem haja cegonhas nos postes de alta tensão da A6, a última paragem para um “café a sério” numa estação de serviço lusa, a chegada ao aeroporto de Badajoz três horas antes do voo da Air Algerie.

No aeroporto minúsculo amontoam-se centenas de caixas, caixotes, malas de viagem, mochilas a rebentar pelas costuras. O peso da solidariedade feito de alimentos, medicamentos, roupa e brinquedos, desfez em fanicos os nervos do pessoal do check in, mas coube todo no avião. Aproveitando a semana santa, associações humanitárias espanholas vão em força para Tinduf e levam tudo quanto podem. Muitas destas pessoas acolhem crianças sarauis nas férias do Verão e agora vão fazer-lhes uma visita. No meio da confusão espanhola e da impaciência tuga da espera, descubro Abel.

Através do vidro que separa a sala de embarque do bar do aeroporto duas crianças, uma de cada lado, simulam beijos e trocam ternuras. O quadro é irresistível e aproximo-me. Abel é um menino saraui de 14 anos, vestido com calças de ganga, pólo e ténis Puma. Nasceu nos campos de refugiados de Tinduf com um problema renal e teve de ir para Espanha para lhe ser retirado um rim. Desde há nove anos que vive em Espanha com a mãe, pai, um irmão e uma irmã adoptivos e vai agora, mais uma vez, visitar a família de sangue a Tinduf. Enquanto Abel e a irmã de sete anos fintam as saudades que irão sentir na próxima semana, Maribel, a mãe espanhola conta que a história da família não tem sido fácil. Alguns desentendimentos com a família de origem só solucionados com “diligências efectuadas ao mais alto nível com os representantes sarauis em Madrid” e muitos milhares de euros gastos, incluindo bilhetes de avião que eram enviados e nunca utilizados.

A revolta pelas condições em que vive a família de Abel também é muita “a Argélia mete-os para lá num pedaço de território, num deserto que não quer para nada…E o cheiro…Aquele cheiro dos acampamentos não é identificável com mais nada. Verás”. Mas sorri quando mostra as fotografias de Abel no telemóvel e diz que todos lhe chamam Ronaldinho, por causa do cabelo e do jeito para a bola do miúdo. Longe das complicações dos adultos, já no avião que parte ao final da tarde, Abel diz-me que vai conhecer uma irmã que, entretanto, nasceu enquanto ele estava em Espanha. E está feliz. “Vou ver alguns amigos, não tantos como os que tenho em Espanha. Gosto de ir, mas por pouco tempo, e depois voltar”. Até Domingo, Abel.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Un grito desde el Sahara




Un grito desde el Sahara é um documentário de 2008 realizado pela organização não governamental basca Mundubat. A violência do regime marroquino, a indiferença da comunidade internacional, a luta pacífica pela recuperação do território e soberania são alguns dos ângulos sobre os quais testemunham activistas no campo dos direitos humanos, jornalistas, dirigentes políticos e a própria população saharaui.

No entanto, a força maior destes depoimentos vem das vozes das mulheres saharauis entrevistadas. Umas muito jovens, outras mais velhas contam na primeira pessoa, em castelhano ou inglês perfeito, a sua história. Uma história de “mulheres lutadoras, rebeldes que, quando se propõe a algo conseguem atingi-lo”, como descreve um dos homens saharaui.

Nos campos de Tinduf, com temperaturas entre os 55º no Verão e negativos nas noites de Inverno, a sobrevivência de famílias inteiras depende destas mulheres. “A vida de um refugiado aqui é muito dura. Não sente que é livre. Queres mostrar aos teus filhos outro lugar e não tens condições para fazê-lo. E há muitas outras coisas…Outras coisas na nossa mente…que a língua não consegue expressar”, lamenta uma delas neste documentário que constitui uma boa introdução ao tema.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Group Doueh

If you think you’ve heard all the great electric guitar styles in the world, think again. This Saharan sand-blizzard of fine-crushed glass will grind your face to a bloody pulp. Group Doueh play raw and unfiltered Saharawi music from the former colonial Spanish outpost of the Western Sahara. Doueh (pronounced “Doo-way”) is their leader and a master of the electric guitar. He’s been performing since he was a child playing in many groups before finally creating his own in the 1980’s. Doueh says he’s Influenced by western pop and rock music especially Jimi Hendrix and James Brown. His sound is distorted, loud and unhinged with an impressive display of virtuosity and style only known in this part of the world. His wife Halima and friend Bashiri are the two vocalists in the group. Saharawi songs are from the sung poetry of the Hassania language. The music is based on the same modal structure as Mauritanian music, however, Doueh’s style is a looser appropriation infused with a western guitar scope, one that relies, in his words, as much on Hendrix as it does traditional Sahrawi music. It also adds a playful pop element that rarely filters through in this region. Doueh has turned down countless offers from Morocco and Europe to release his music but he decided to offer us access to his homemade recordings and photo archive for this amazing debut LP. This is a one-time pressing of 1000 copies, the first Sublime Frequencies vinyl release. Pressed on 180 gram vinyl and comes in a gatefold full color jacket stocked with great photos of the musicians and liner notes by Hisham Mayet.

Já está esgotado, mas pode ser que volte a estar disponível no site da editora, Sublime Frequencies.

Estarão na Gulbenkian em Junho, segundo informação no Juramento Sem Bandeira.