quinta-feira, 28 de maio de 2009

Guiné Bissau reconhece a República Árabe Saraui Democrática como Estado

O jornal online ibinda.com noticia que o Governo da Guiné-Bissau reconheceu formalmente a existência da República Árabe Saraui Democrática, RASD, como um Estado de direito. O jornal classifica este facto como "uma vitória diplomática da Frente Polisário". A Guiné Bissau passa a integrar a lista de mais de 80 países que reconhecem a RASD.

"A decisão governamental foi anunciada em comunicado de imprensa esta quarta-feira em Bissau. De acordo com o mesmo documento, o executivo do Carlos Gomes Júnior, sustentou a sua medida com base nas resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a questão Saara Ocidental. «Depois de ter analisado a questão à luz das resoluções da Assembleia-geral e do Conselho de Segurança da ONU que permitiram ao Reino do Marrocos e a Frente Polisário estabelecerem negociações directas entre as partes, por forma a encontrar uma solução política justa e aceitável, o Governo decidiu levantar a suspensão do reconhecimento da República Árabe Saraui Democrática em vigor desde Março de 1997», adianta o comunicado do Governo. O comunicado do Governo sublinha ainda que o executivo reitera a sua disponibilidade no processo negocial iniciado entre o Reino do Marrocos e a Frente Polisário. A RASD foi membro, desde 1984, da Organização da Unidade Africana (OUA) e membro fundador da União Africana (UA)".
Autor: Sumba Nansil

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dia da África: Um apelo à hipocrisia

Artigo de opinião de Timothy Bancroft-Hinchey, director do jornal russo Pravda.

Amanhã é 25 de Maio. O dia em que se formou a Organização da Unidade Africana em 1963. É o dia em que a comunidade internacional recorda que África existe e com egoísmo presunçoso, tenta colectivamente ganhar pontos promovendo todas as causas africanas enquanto perpetua os males que assombram os africanos.

Tornou-se moda, para tantos, serem vistos como campeões de uma caridade ou de uma ONG africana para as mesmas razões que apresentar um bebê negro ao colo, patrocinar uma criança africana ou adoptar um bebé sub-sahariano atrae a atenção mais facilmente do que algum miserável das espeluncas de Mumbai, uma moça indesejada da Mongólia Interior ou de qualquer outra criança que teve a infelicidade de ter nascido no lado errado de alguma fronteira.

Especialmente se a criança africana é fotogénica.

Mas quem, por exemplo, diz uma palavra sobre as crianças Sahraui, ou então do povo da Sara Ocidental, invadido e anexado pelo Marrocos em 1976 e negado o direito a ser nação? Quem aumenta a consciência pública sobre os milhares de línguas africanas - e simultaneamente de culturas - ameaçadas com a extinção quase numa base diária? Quem se importa que os governos ocidentais – os mesmos que tiveram tantos dilemas sobre Saddam Hussein - negoceiam com regimes africanos não-democráticos, fazendo vista grossa aos seus abomináveis registos de Direitos Humanos?

Quem lê sobre as onze milhões (11.000.000) de pessoas deslocadas em África central e oriental, a pior crise de deslocação do mundo, causada pela violência por sua vez ventilada pelos poderes exteriores que continuam a desejar governar África com uma política da divisão interna, enquanto espreitam os recursos do continente e subornam os gerentes das instituições que os controlam? Se corrupção existe em África, não é só porque os oficiais são corruptos, é igualmente porque foram corrompidos.

Mas de repente, beleza! É o dia 25 de Maio! É dia da África! E amanhã tantos vão vestir a camisola da África e vão tirar a poeira dos apontamentos do ano passado, fazendo umas alterações à peça de opinião e apoiando as Grandes Causas Africanas de 2009 (depois de terem passado sem dúvida um ano inteiro a escrever disparates sobre África, ou não terem escrito nada, ou terem feito comentários insultuosos e racistas contra Africanos).

Aqueles que assim fazem devem sentir especialmente envergonhados quando souberem que o Gabinete para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA em inglês) acaba de emitir um relatório que reclama ter recebido apenas 27 por cento dos fundos necessários para a sustentação da população em África central, um terço dos fundos necessários para criar a estabilidade em Somália, onde 40 por cento da população são dependentes do apoio alimentar e cujo capital hospeda meio milhão de refugiados que vivem nas circunstâncias mais chocantes.

Aqueles que lêem estas linhas pela primeira vez e que podem sentir-se surpreendidos sobre a falta na informação acerca da África no pacote diário de “notícias” que eles recebem, devem compreender que aqueles que costuram, editam e controlam esta “informação” decidiram há anos que África é e será vendida como um lugar escuro e perigoso com pessoas escuras e perigosas, não vivendo, mas existindo, com seca, guerras e fome, AIDS e malária e corrupção, ébola e mais corrupção. Uma causa perdida.

Aqueles que acreditam que África não é uma causa perdida mas que negam que os problemas existem são tão culpados como aqueles que perpetuam as situações que assombram os africanos através de práticas de corrupção e de actividades comerciais escuras.

A única maneira de dar algum significado ao Dia da África é enfrentar os factos e definitivamente, de uma vez por todas, fazer algo, colectivamente, porque os problemas da África foram criados não somente por Africanos. Este processo deve começar com os meios de comunicação a fazerem seu trabalho, nomeadamente informarem, não espalhando boatos, desinformação e enganando o público, de modo que os cidadãos do mundo possam esperançosamente fazer algo para ajudar seus irmãos africanos, visto que é óbvio que as gerações dos nossos líderes não fizeram absolutamente nada para corrigir os erros da escravidão, do imperialismo e do colonialismo.

domingo, 24 de maio de 2009

Sara Ocidental: À espera de uma vida normal

Reportagem publicada na revista Notícias Sábado do Diário de Notícias/Jornal de Notícias, 23 de Maio de 2009
por Joana Simões Piedade

A NS’ visitou um campo de refugiados do Sara Ocidental em Tinduf, no Sudoeste da Argélia. Em casas de adobe, sujeitos a dificuldades de alimentação e deficientes cuidados de saúde, rapazes e raparigas que já viveram com famílias de acolhimento em países europeus, incluindo Portugal, têm sonhos iguais aos de quaisquer outros da sua idade.

SÃO CINCO da manhã. Lamira, 18 anos, prepara-se para a primeira oração do dia. Dever cumprido, junta-se à mãe que, sentada no tapete colorido que constitui a única mobília daquela sala de quatro paredes feitas de adobe, dá início ao ritual da preparação do chá. Vários copos pequenos são alinhados em fila, o pote com água colocado nas brasas, o líquido fervido é despejado num dos copos e, depois, passado de copo em copo até criar espuma. Um ritual que irá repetir-se inúmeras vezes ao longo daquele dia.
Estamos num dos acampamentos de refugiados de Tinduf, deserto do Sudoeste da Argélia, onde habitam cerca de 165 mil sarauís da antiga colónia espanhola do Sara Ocidental. A paisagem é desértica, pedregosa e infértil, com barracas de tijolo cru e tendas de lona (chamam-lhes jaimas) despojadas de tudo, sem luz nem água corrente. Não se vislumbra vegetação, a água é escassa e extraída através de furos. Ventos fortes, o chamado siroco, soprados do deserto em direcção ao Norte de África, causam tempestades de quando em vez. As raras chuvas torrenciais provocam desabamentos.

NO VERÃO, as temperaturas atingem o calor sufocante dos cinquenta graus, nas noites de Inverno podem ir aos negativos. Como podem viver Lamira e a família ali? Fugiram para a Argélia após a retirada da Espanha em 1975 e consequente anexação do Sara Ocidental a Marrocos. Agora esperam.
Esperam voltar à sua terra de origem banhada pelo oceano Atlântico. Em 1976, o movimento de libertação Frente Polisário autoproclamou a independência da República Árabe Sarauí Democrática (RASD) e, desde aí, tem criado no Sudoeste da Argélia estruturas de um Estado, ainda à espera de o ser. Para não esquecer o passado, os acampamentos de refugiados têm os nomes das cidades do Sara Ocidental controladas por Marrocos há 33 anos.
Lamira e a família de sete pessoas moram em Dakhla, o mais longínquo dos quatro acampamentos, situado a sudoeste de Tinduf, junto à fronteira com a Mauritânia, mais perto das dunas de areia do Sara do nosso imaginário. Cerca de 95 por cento da população são mulheres. Os homens prestam serviço militar e vão para longe de casa, para a «frente», apesar de não haver obrigatoriedade para se alistarem nem guerra onde disparar. Regressam de meses a meses, consoante a permissão.
Contrariando algumas práticas estabelecidas e outras tantas ideias feitas no que toca aos países árabes, perante esta situação, cabe às mulheres um papel fulcral na organização e gestão dos campos de refugiados: são a maioria nos conselhos regionais e representam 34 por cento do Parlamento Sarauí. Revezam-se entre a organização da casa e das famílias, cursos profissionais, actividades de apoio social aos mais carenciados, trabalho associativo. Manterem-se ocupadas é vital para resistir ao vazio da espera.

OS DIAS no acampamento são longos e há muito pouco para fazer. As crianças e os jovens frequentam a escola durante a manhã e ao final da tarde, evitando as horas de maior calor. Como Lamira. A jovem fala num castelhano perfeito, aprendido na escola e nos três anos que viveu e estudou em Sevilha com uma família de acolhimento espanhola.
Sentada no chão, com as irmãs mais novas encavalitadas, mostra com satisfação as fotografias tiradas durante esses anos. Irreconhecível à primeira vista, é uma outra menina sem a sua melfha, o lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauís, e que Lamira veste por cima das calças de ganga e ténis. Em cima de uma scooter, com o cabelo frisado, top de alças colorido e brincos, maquilhada para uma festa ou vestida de sevilhana. Depois em Cádis, no casamento de uma «irmã», vai apontando com orgulho a família emprestada.
Nos álbuns vindos de Espanha aparece sempre de óculos postos, os mesmos que se recusa a usar no deserto. «Para quê? Aqui não preciso deles.» Óculos feitos metáfora na vida de Lamira, como se nada houvesse para enxergar no deserto. Confessa, entre risos, que «em Espanha não rezava. Ao princípio sim. Depois esquecia-me. Mas a minha mãe não sabe». Para os muçulmanos sarauís, o Estado é laico e a religião é opção de cada um. Esta posição de tolerância religiosa deixa-os mais longe dos restantes países árabes.


QUANDO VOLTOU da Andaluzia, Lamira chorava todos os dias. Depois, passou, conformou-se. Quer ser cabeleireira, mas o sonho será adiado. «As pessoas no acampamento não têm dinheiro para isso.» Desconsolo maior parece ser relativo aos rapazes «aqui são muito feios, ou bonitos mas com os dentes estragados», confessa, fazendo uma careta.
E namorar? «Não, não. Aqui, se a tua mãe sabe que gostas de um rapaz já não te deixa sair de casa. Não quero isso para mim», diz enquanto tira os óculos de sol imitação chinesa de marca de renome comprados em Argel. A vida de adolescente na normalidade possível da condição de refugiada.
A ida de Lamira para Espanha insere-se numa estratégia política da RASD na área da educação, que encontra eco na frase «ser culto é o melhor caminho para ser livre», repetida em várias placas por todas as escolas. Todos os anos 8400 crianças, entre os 8 e os 12 anos, saem dos acampamentos sarauís para passar um Verão mais ameno na Europa (Espanha e Itália, sobretudo) junto de famílias de acolhimento ou em acampamentos de férias, ao abrigo do programa Férias em Paz.
Algumas das crianças e jovens aproveitam para recorrer a tratamentos médicos impossíveis de realizar em Tinduf. O desenvolvimento deste programa veio ainda introduzir nos acampamentos um factor novo: a circulação de dinheiro. A nova realidade possibilita a existência de um pequeno comércio, feito de lojas de supermercado, vestuário e quinquilharia vária e cafés. Estabelecimentos frequentados não só por delegações da ajuda humanitária como pelos refugiados. Com o apoio internacional foram ainda construídos cibercafés onde jovens sarauís consultam e-mails e conversam em chats na internet.

PORTUGAL é visto pelos dirigentes sarauís como um país com potencial para acolhimento destas crianças, até pela proximidade geográfica. Apesar das tentativas levadas a cabo por organizações como o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), apenas um número reduzido de portugueses tem recebido crianças sarauís.
Alzira Mendes vive no Restelo, em Lisboa. Teve o primeiro contacto com os refugiados quando acompanhou o marido, médico, à Maratona do Sara, que acontece todos os anos em Fevereiro. A partir daí, começou a acolher crianças. Agora, de visita a Smara (o maior e mais densamente povoado dos acampamentos de Tinduf), fica em casa da família de Halifa, de 17 anos, que já recebeu em Portugal. «Gostei da piscina e da praia, dos parques e dos passeios», diz o rapaz.
O relato de Alzira é emocionado. «Ganhei mais com eles do que eles comigo, não tenho dúvidas.» Mas ser família de acolhimento é duro. «Quando vão para nossa casa têm saudades da mãe e choram nos primeiros dias. Depois percebem que têm muito para aproveitar naqueles dois meses. Vamos com eles a todos os sítios possíveis, queremos que vivam tudo, conheçam tudo. Quando partem, as saudades são muitas para nós e para eles também.» Depois, fica o vazio e «todos os dias sentar-me à mesa e pensar se eles aqui terão comida».

COMIDA NA MESA. É sempre a incógnita para os refugiados sarauís, actualmente vítimas de reduções da ajuda alimentar da qual dependem totalmente. Marrocos tem vindo a acusar a Polisário de revender a ajuda humanitária na Mauritânia e isso, segundo a RASD, tem consequências no envio de alimentos por parte das organizações. O alcaide de Dakhla conta que «há cada vez menos alimentos e problemas com o transporte.
Os atrasos chegam a ser de um mês e isso causa uma situação muito complicada para as famílias». Quando chega, nos dias 1 a 10 de cada mês, cada pessoa recebe alimentos básicos consoante a quantidade disponível: dois quilos de farinha, um quilo de arroz, massa, açúcar, lentilhas, uma lata de atum, azeite. O que for possível.
Como consequência de uma alimentação deficiente, muitos refugiados sofrem de má nutrição, anemias e desidratação. Nos hospitais, os médicos sarauís, maioritariamente formados em Cuba, contam com o apoio permanente das representações espanhola e grega da organização não governamental Médicos do Mundo.
Ibrahim, médico ginecologista, é o único especialista na região e vem ao hospital de Dakhla uma vez por mês. Entre um cigarro e outro traça o diagnóstico. «As mulheres aqui carregam muito peso, sacos de comida da assistência humanitária, água, isso provoca muitos abortos espontâneos, rupturas intra-uterinas. Só há pouco tempo começaram a substituir os trapos por pensos higiénicos durante a menstruação e estamos a conseguir evitar várias infecções.»

OS DOIS MÉDICOS residentes deste hospital têm 28 anos. Ali Maulud e Matala alternam a cada semana a posição de homem do leme do hospital e, nessas alturas, são responsáveis 24 horas por dia. Vêem-se a braços com muitos casos de hipertensão, diabetes, doenças respiratórias, bronquites e desidratação.
A má qualidade da água é responsável por um elevado número de doenças intestinais, gastrites, febres. Os banhos são esporádicos porque a água escasseia. Apesar de o sistema de saúde ter vindo a conseguir evitar a propagação de epidemias nos campos, as condições são deficientes.
A secção de maternidade de Dakhla tem uma incubadora e esterilizador alimentados por um sistema de aproveitamento solar ue só funciona quatro horas por dia. A energia fornecida não chega para mais.


O caminho de Dakhla ao acampamento «27 de Fevereiro» faz-se a bordo de um Land Cruiser por um caminho de pó e solavancos. Ao fim de 120 quilómetros passamos por Rabuni, o centro administrativo dos vários campos de refugiados, onde se concentra todo o aparelho deste «Estado» virtual.
Numa comparação ocidentalizada, Dakhla corresponderia ao campo, feito de casas dispersas e estradas vazias, e o «27 de Fevereiro» à cidade, com a azáfama de várias gerações de refugiados, estrangeiros de organizações de ajuda humanitária, e com a electricidade que permite ter luz ao clique de um interruptor.

NO RECINTO da escola, à volta da qual cresceu o acampamento, está montado um palco. Projectadas em dois improvisados panos brancos, passam imagens de uma marcha de protesto realizada, no dia anterior, junto ao muro de dois mil quilómetros construído por Marrocos. Há música, gritos e vivas a um Sara Livre.
Bader Habub, 28 anos, está presente e é o presidente de uma associação de voluntários (a Brigada Sumud) que actua nos campos de refugiados fazendo trabalho junto das famílias mais necessitadas, inválidos e mutilados de guerra. Como muitos jovens sarauís que frequentam cursos superiores no estrangeiro (sobretudo em Espanha, Argélia e Líbia), Bader estudou Geologia e Contabilidade em Cuba.
A postura perante o conflito, como a da maioria dos da sua geração, é radical. «Para ter a independência, para ter direito à terra, há que derramar sangue.» Ainda assim, Bader espera que «o referendo da ONU seja realizado com justiça» [ver caixa]. Activistas sarauís como Bader comparam a situação do Sara Ocidental a Timor Leste, ocupado pela Indonésia após a saída de Portugal, da mesma forma que Marrocos ocupou o Sara quando Espanha abandonou a região.
A revolta do jovem dirige-se para a escassez de perspectivas de uma vida melhor. «Aqui há muitos licenciados que não têm como utilizar os seus conhecimentos. E muito dinheiro das ajudas humanitárias tem origem no nosso mar, através das pescas, e na nossa terra, através dos fosfatos. Riquezas que Marrocos divide com os países ocidentais», indigna-se.
Bader olha para o futuro e garante que não quer ser contabilista em Espanha nem geólogo em França. «Não quero ser exilado aqui, na Argélia, e depois imigrante noutro sítio. Quero o meu país e ficar com o meu povo onde quer que ele esteja. Até ao fim.»
Ao fundo, como ecos no acampamento, risos universais e cantares em árabe soltam-se no escuro da noite abrigados por um céu inteiro de estrelas que só se deixam ver no deserto.
Versão online aqui.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Colóquio Sahara Ocidental: 36 anos de luta pela autodeterminação e independência

Via Blogo Social Português tomei conhecimento que a Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental, a ATTAC-Plataforma Portuguesa, o CIDAC (Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral), a Comissão Nacional Justiça e Paz e o Fórum pela Paz e pelos Direitos Humanos organizam no 25 de Maio (2.ª Feira), pelas 18h30, na sede da Associação 25 de Abril, um colóquio sobre os 36 anos de luta pela autodeterminação e independência do Povo Saharaui.

São oradores: a Prof.ª Maria do Céu Pinto, do Departamento de Ciência Política e Administração Pública da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, o General Pedro Pezarat Correia e Adda Brahim, representante da Frente POLISARIO em Portugal.

A Associação 25 de Abril fica no nº 95 da Rua da Misericórdia, ao Chiado.

Canal de televisão saharaui começa a emitir para o mundo


A BBC Monitoring cita o jornal de língua árabe Al-Hayet, com sede em Londres, segundo o qual o novo canal televisivo saharaui RASD TV, situado em Tinduf, terá transmissão terrestre para os refugiados do Sahara Ocidental e também através do satélite Intelsat’s 905.
A programação da RASD TV será, numa primeira fase, totalmente em árabe mas prevê-se que, posteriormente, haja também programação específica em inglês e espanhol.
Segundo noticia a Rapid Tv News, o director do canal, Mohamed Salem Ahmed Labaid, disse à Agência de Notícias Saharaui (SPS), no dia 17 de Maio, que espectadores a viver em África, Europa Ocidental e grande parte do Médio Oriente serão capazes de receber e visionar o novo canal. Labaid acrescenta que "os espectadores poderão ser informados diariamente dos últimos desenvolvimentos da questão do Sahara Ocidental e da situação no território ocupado, através de boletins informativos e vários programas na área política, cultural e social, bem como vídeos e documentários sobre a luta do povo saharaui".
Segundo a mesma fonte, o responsável para os Media da Frente Polisario, Mohamed El Mami Tamek, referiu ao jornal Al-Hayat que a decisão de lançamento de uma estação televisiva "coincide com as comemorações do 36º aniversário do início da luta armada" contra a presença de Marrocos no Sahara Ocidental. Segundo Tamek, o novo canal "irá revelar as graves violações cometidas por Marrocos contra os saharauis nos territórios ocupados no sul de Marrocos".
A RASD TV já emitia programas, de forma experimental, nos campos de refugiados de Tinduf durante quatro horas por dia. O objectivo agora é ser captada em todo o mundo, especialmente "nas cidades saharauis debaixo de ocupação marroquina".
O projecto existe há cerca de cinco anos e o seu financiamento está a cargo da Asociación de Amigos del Sáhara de Sevilla.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Um salto à chuva


De volta à estrada. O mais longínquo dos acampamentos de Tinduf, e por isso o mais sofrido, aquele que alberga os maiores problemas e carências, ficou para trás na nossa jornada – no rigor e crueldade da geografia - e seguimos viagem. Com a promessa de fazer chegar pelo correio fotografias, notícias, saudades e de espalhar a palavra, contar a todos quanto pudermos a história e as estórias que ali conhecemos.

Voltámos aos Land Cruiser azuis que vão desbravando terra, cortando o ar, levantando pó, sem rumo definido no chão, tentando seguir as pistas anteriormente desenhadas pelos pneus de outros jipes. A caminho do vazio. Sentada no banco da frente vou tentando, aos solavancos, físicos e metafóricos, relembrar os últimos dias, apontando no caderninho preto recordações, na tentativa vã de não esquecer nada para melhor contar tudo. Entre memórias, passamos por um posto militar “importante”, dizem-me, em termos estratégicos devido à proximidade com a Mauritânia. Logo a seguir, a aldeola de Gara Djebillet onde vivem os familiares dos militares.

Iremos parar um pouco depois, a 70 quilómetros de Tinduf, no meio do nada, para visitarmos o internato do 12 de Outubro. A escola que abriga 650 alunos, entre os 12 e 18 anos, recebeu o nome da data em que se festeja a Unidade Nacional dos Saharaui. Como nos explica o director, este internato é uma etapa intermédia para todos aqueles que pretendem continuar a estudar. Após os quatro anos ali vividos, os jovens podem seguir para um dos vários países com os quais existem protocolos de cooperação para estudos universitários. Líbia, Síria, Cuba, Argélia ou Espanha, podem vir a ser o seu próximo destino. Visitamos as salas de aulas, com paredes bem providas de pedaços da história de um povo, contada através de fotografias a preto e branco de heróis nacionais e cópias de mapas; no chão maquetes da escola, minuciosas, pormenorizadas, construídas a papel, areia e pedra; no laboratório de química, tubos de ensaio, pipetas, varetas, espátulas e demais equipamento que permite descortinar os mistérios da natureza; na cantina gigantesca, mesas corridas, intermináveis, onde são colocados tabuleiros e servidas as refeições; nas dezenas de dormitórios, centenas de camas abrigam os 650 jovens que trocam a vida junto dos pais pela continuação dos estudos e personificam a máxima “Ser culto para ser livre”, presente em todo o lado.

Durante a visita, o calor sempre abrasador que nos esmaga, queima e amolece, é interrompido por um vento forte e barulhento que se levanta sem avisar. De repente, saímos para a rua e deparamo-nos com o cenário que a fotografia ali em cima mostra. Junto a um muro, uma mão cheia de crianças ensaiava saltos e piruetas festejando uma chuva miudinha e refrescante que caía inesperadamente. Alegria em estado puro na simplicidade de água no deserto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O futuro que espreita


A nossa despedida da casa de Dakhla. Da direita para a esquerda na foto, Francisco, Sanya, a irmã mais nova de Lamira que adorava andar com a nossa máquina fotográfica em punho, ora a acordar o pai com os flashes, ora a retratar para a posteridade a mãe de sorriso largo no rosto e “V” de vitória entre os dedos (vitória de um Sahara Ocidental livre, claro!). E Hailili, de três anos, o irmão caçula, o futuro da “nossa” família de Dakhla.

Os três à porta. A espreitar.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Festival Internacional de Cinema do Sahara 2009




Fotos "roubadas" daqui.

Uma janela aberta para o mundo. Durante cinco dias e cinco noites, as dunas de Dakhla servem de cenário a um festival internacional de cinema. A sexta edição do Festival Internacional de Cinema do Sahara (FiSahara 09) acontece já de 5 a 10 de Maio no acampamento de Dakhla em Tinduf. Durante o festival, que não inclui uma competição oficial, projectam-se filmes como Camino, La ola, El truco del manco, Los crímenes de Oxford e Che, entre outros, assim como algumas curtas-metragens, filmes africanos ou de temática saharaui.

“Esta iniciativa nasce com a finalidade de sensibilizar e dar uma solução parcial às necessidades detectadas, referentes ao lazer, actividades culturais e de formação audiovisual, entre a população de refugiados saharauis dos acampamentos de Tinduf, na Argélia. O objectivo é realizar actividades de difusão cultural no âmbito cinematográfico”, refere a organização do festival.

O projecto Cinema pelo povo saharaui quer ir mais longe do que os cinco dias que dura o FiSahara e abarca também a criação de uma rede de videotecas, uma em cada um dos acampamentos e de oficinas e cursos de formação audiovisual. Formar jovens entusiastas da sétima arte e, devagar, ir criando uma verdadeira escola de cinema nos acampamentos, são os objectivos traçados.

O "direito a viajar" das crianças saharauis – Ir ao Mundo e voltar



Olhar o mar pela primeira vez, descobrir o azul reflectido numa imensidão de água, voar a bordo de um avião cheio de crianças como eles, atravessar o continente africano para o europeu, descobrir montanhas e escarpas, ver ao vivo cores iguais às desenhadas com lápis trazidos de longe, andar de carro em cidades grandes, encadeantes de luzes e néons, ruidosas, barulhentas e confusas, mas cheias de movimento e vida, pisar a areia molhada da praia e construir um castelo igual aquele que acabaram de visitar, ir a museus e ver marionetas, dinossauros, espadas e tambores, correr em parques naturais e jardins, andar de comboio e de barco, descobrir a água corrente, saber o que é abrir uma torneira e a água não parar de jorrar, tomar um banho diário, descobrir esse objecto chamado de sanita, escovar os dentes diariamente, comprar roupa e sapatos, aprender a comunicar num novo e estranho idioma, assistir a desenhos animados numa sala de cinema, ter comida na mesa com fartura e refeições tomadas várias vezes ao dia, pensar que aquilo que sobra faria falta na casa lá longe, usar um garfo e uma faca para levar a comida à boca, deitar numa cama para dormir e chorar com saudades da mãe que ficou longe e que chorará também ela na sua tenda de Tinduf, regressar depois ao acampamento e chorar com saudades do que se acabou de conhecer.

Ir ao Mundo e voltar. É isto que fazem, todos os Verões, durante os meses de Julho e Agosto, cerca de 8.400 crianças saharauis dos 8 aos 12 anos. Com o aproximar do tempo mais quente e seco inaugura-se o programa governamental saharaui "Férias em Paz"/ "Vacaciones en Paz". Vários voos charter partem de Tinduf completos de crianças a caminho de umas férias na Europa. Um verdadeiro "direito a viajar" consagrado pelos responsáveis saharauis. Os seleccionados (os critérios são a idade e o sucesso escolar, - a quem reprova um ano escolar não é permitido repetir o programa) deixam as temperaturas impossíveis do Verão nos campos de refugiados na Argélia e vão viver dois meses em Espanha, França, Itália ou outro destino, junto de famílias estrangeiras de acolhimento e/ou em colónias de férias. Os custos são totalmente suportados pelas famílias de acolhimento, em conjunto com várias associações europeias de apoio à causa saharaui.

A razão de ser deste programa foi-nos explicada pelo secretário da Juventude Saharaui. Segundo Mouloud Fadel, este programa é uma forma de "as crianças conhecerem uma sociedade diferente, saberem que é possível uma vida diferente daquela vivida nos acampamentos e que devem lutar por isso". Para além de permitir às crianças a visão deste mundo novo fora dos acampamentos, o programa "Férias em Paz"/ "Vacaciones en Paz" tem objectivos políticos que os responsáveis não escondem. "Estas crianças são embaixadores da Paz no sentido em que vão dar a conhecer às famílias e respectivos países europeus a realidade em que vive o povo saraui". Uma forma de espalhar a causa através das crianças. Também a questão financeira está bem presente. A criação de laços afectivos entre as crianças saharauis e as famílias europeias permite "uma certa auto-suficiência das famílias nos acampamentos e independência da ajuda humanitária organizada, isto porque, as famílias passam a enviar dinheiro, bens e a visitar as crianças nos acampamentos". Desta forma, o chamado "direito a viajar" das crianças é uma forma de dotar o povo saharaui de alguns recursos e uma oportunidade de ajudar à resistência através da solidariedade directa, mais independente de conjunturas económicas e interesses políticos.

O programa visa ainda possibilitar a realização a algumas crianças de cirurgias e tratamentos médicos que não podem ser realizados em Tinduf, por falta de condições. Foi o caso de Abel, lembram-se?
Portugal é visto, até pela proximidade geográfica, como um país com potencial para acolhimento destas crianças, tanto para realização de cirurgias como para as receber num período de férias. No entanto, e até agora, apenas um número reduzido de portugueses tem recebido crianças saharauis. Existem excepções, claro. Falaremos disso mais tarde.